Mesmo com duas intervenções do BC (Banco Central), o dólar voltou a subir nesta terça-feira (26). Com alta de 0,61%, a moeda americana encerrou o dia em R$ 4,2410. Na máxima da sessão, chegou a R$ 4,2771, a maior cotação intradia já registrada, sem considerar a inflação. O recorde anterior tinha sido registrado em 24 de setembro de 2015, quando o dólar bateu R$ 4,2484. Declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizando que o câmbio de equilíbrio tende a alcançar patamares ainda mais elevados, e a expectativa em torno dos desdobramentos da guerra comercial entre Estados Unidos e China influenciaram o mercado, mas especialistas acreditam que ainda não há motivos para preocupações e que o preço da moeda deve se estabilizar.

Apesar das constantes quebras de recorde, especialistas acreditam que ainda não há motivos para preocupações e que o preço da moeda deve se estabilizar
Apesar das constantes quebras de recorde, especialistas acreditam que ainda não há motivos para preocupações e que o preço da moeda deve se estabilizar | Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Na segunda-feira (25), o dólar havia fechado em alta de 0,5%, a R$ 4,2129. O recorde anterior havia sido alcançado na semana passada, com a moeda americana encerrando a sessão cotada a R$ 4,206. Na parcial de novembro, a alta acumulada é de 5,07% sobre o real. No ano, o dólar avançou até agora 8,74%.

A tendência de alta levou o BC a intervir por duas vezes, anunciando dois leilões para venda de dólares no mercado à vista. O primeiro aconteceu das 11h03 às 11h08 e o outro, das 15h35 às 15h40, com lote mínimo de US$ 1 milhão. A data de liquidação informada pelo banco é a próxima sexta-feira (29).

O movimento de alta começou como reação do mercado à fala de Guedes, que na segunda-feira, em Washington (EUA), disse não estar preocupado com o dólar acima de R$ 4,20 e que “é bom se acostumar com o câmbio mais alto e juro mais baixo por um bom tempo”.

O câmbio foi impulsionado por “um pacote de notícias ruins”, avaliou o gestor da mesa de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem. Além da apreensão diante da relação comercial entre americanos e chineses, incertezas econômicas internas também contribuem para a alta do dólar. Como efeito direto, há prejuízos ao turismo internacional e à indústria, que começa a ter mais dificuldade para renovar o maquinário, resultando em perda de competitividade. “O lado bom é que somos um país de commodities, o que significa mais lucro. Os pecuaristas, por exemplo, comemoram a alta no câmbio. E o turismo interno também é beneficiado”, afirmou.

Para Hélio Lot, dono de uma correspondente cambial de Londrina, a alta do dólar pega de surpresa quem já estava com viagem marcada para o final do ano. Não são esses, porém, que deixarão de comprar o dólar nas casas de câmbio. A alta recorde vai afugentar os turistas que planejavam viajar na próxima temporada de férias. Esses, sim, poderão rever os seus planos de viagem. “Como o pessoal já se programa para viajar no final do ano, ninguém esperava que o dólar ia estar com essa cotação. Vamos sentir (o impacto) mais para abril. Se o dólar não recuar, na próxima temporada de férias as pessoas em vez de irem para o exterior vão viajar pelo Brasil mesmo.”

Novo patamar

Sobre as intervenções do BC, Nagem entende como uma demonstração de que a instituição “não quer muito que a moeda escape”. “Não sei se os leilões foram para segurar a moeda ou para dar liquidez ao mercado. Só será possível saber nos próximos dias. Mas parece que o câmbio está se desenhando para ficar em R$ 4,30.”

Nesta terça-feira, o coordenador de Operações da Dívida Pública, Roberto Lobarinhas, disse não ver motivos para uma atuação extraordinária do governo na contenção do câmbio. Nagem concorda e diz que, no momento, a situação não é desesperadora. “Vejo como movimento de mercado aparentemente momentâneo, vai se acomodar, mas a pergunta é: se acomodar em que nível? R$ 4,10, R$ 4,20?”

“Vejo como uma manobra (de Paulo Guedes) para manter o câmbio alto, visto que ontem tivemos números negativos no déficit público. Ele está tentando valorizar as contas externas, o que artificialmente reduz o déficit primário das contas”, analisou o chefe das mesas de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, que espera que a moeda americana feche o ano de 2019 em R$ 4,20. “O governo não vai fazer esforço para baixar disso”, prevê.(Colaborou Mie Francine Chiba/Com Agência Estado)

mockup