BC inicia um novo ciclo de alta na taxa Selic
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domingo, 20 de abril de 2008
Fabio Graner<br> Agência Estado 
Brasília - Ao aumentar a taxa básica de juros na semana passada, de 11,25% para 11,75%, o Banco Central (BC), na visão do mercado financeiro, iniciou um novo ciclo de alta na Selic. Se, de fato, os juros forem mantidos no patamar atual ou continuarem subindo nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), esse será o terceiro ciclo de elevação na Selic desde 2003.
De novo, o movimento de alta terá seu impacto sobre a atividade econômica em um ano sem eleição, no caso, em 2009. Nas duas vezes em que o BC promoveu sequências de cortes nos juros na era Lula/Meirelles, elas atingiram em cheio anos de eleição municipal e presidencial, respectivamente, 2004 e 2006, acelerando a economia, sem que a inflação ficasse fora da meta.
Se o mercado estiver certo em suas projeções, o BC voltará a cortar os juros a partir de abril de 2009, dando impulso à atividade econômica em 2010, o ano da sucessão de Lula e dos governos estaduais.
A comparação entre movimentos de política monetária e períodos eleitorais é feita levando-se em consideração que alterações na taxa básica de juros levam de seis a nove meses para afetar a economia. Assim, a alta ''preventiva'' de 0,5 ponto na semana passada e as que estariam por vir só surtirão efeito quando as eleições municipais já estiverem resolvidas.
O ano de 2005
O ano eleitoral de 2008 - quando ainda serão percebidos na economia os cortes realizados no segundo e no terceiro trimestres de 2007 - promete ter um crescimento vigoroso. As reduções nos juros em 2007 fizeram parte de um longo ciclo de quedas da taxa iniciado em setembro de 2005. O movimento garantiu uma forte aceleração do crescimento econômico já a partir do segundo semestre de 2006, ano da reeleição de Lula, e ao longo de 2007.
Antes disso, o BC de Meirelles havia promovido seu primeiro ciclo de redução nos juros entre junho de 2003 e abril de 2004, ano em que o País teve o maior crescimento do primeiro mandato de Lula. Os cortes vieram alguns meses depois do aperto implementado pelo BC, no início do governo Lula, em 2003. Na época, existia um ambiente de incerteza sobre o futuro da economia brasileira no governo petista. O BC elevou os juros para tornar inequívoca a percepção de que o governo não compactuava com uma inflação de 12,5% ao ano.
Analistas ouvidos pela reportagem consideram que a relação entre os ciclos de política monetária e os períodos eleitorais é mera coincidência. A avaliação majoritária é que o BC tinha justificativa técnica todas as vezes que subiu ou baixou os juros.
''Acho que isso é pura coincidência. Não creio que o BC faça isso porque vai ajudar politicamente, senão ele perderia toda credibilidade. Mas não tenha dúvida que isso favorece o ciclo eleitoral'', disse o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas. ''Existe uma coincidência eleitoral nítida, mas acho que é pura coincidência.''
Freitas afirmou que a atuação do BC pode ser questionada do ponto de vista da dosagem dos juros, mas ressaltou que os movimentos de alta e queda na Selic ocorreram na hora certa.
A economista-chefe do Banco Real, Zeina Latif, concorda. ''De fato, todos os movimentos de alta do juro ocorreram quando era necessário. O máximo que se pode dizer é que o governo teve sorte'', afirmou Zeina. Ela explicou que na literatura econômica se constata a vinculação de ciclo eleitoral com política fiscal, mas não com política monetária.
No Brasil, uma tese de mestrado do economista Fernando Roberto Fenólio trata do tema, analisando a política monetária desde 1999. Ele conclui que não há evidências de manipulação de juros com fins eleitoreiros, ''atestando a ausência de ciclos políticos na política monetária'' e reforçando a percepção de independência do BC.
Para um analista de mercado, que pediu para não se identificar, a pergunta que fica no ar é: ''Será que se estivéssemos em ano de eleição presidencial haveria maior pressão de Lula para o BC não subir os juros? A gente não vai ter essa resposta. Mas acho que sim''. A fonte observa, no entanto, que Lula é um estrategista e, provavelmente, deve considerar que é melhor avalizar um ajuste na taxa de juros neste momento do que em um período de eleições.
O estrategista-chefe do banco BNP Paribas, Alexandre Lintz, também considera uma coincidência a relação entre política monetária e eleição. Mas avalia que o bom relacionamento do BC com Lula é em função da capacidade de o governo entregar a economia em bom ritmo em ano de eleição. ''O BC trabalha para que no longo prazo se tenha o melhor ambiente econômico, e isso inclui 2009 e 2010'', disse Lintz. Segundo ele, o objetivo da política monetária é promover o melhor balanço entre crescimento e inflação. ''E esse é o melhor balanço para o presidente Lula.''


