BC freia o mercado e contém o dólar
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sexta-feira, 11 de outubro de 2002
Das agências 
Brasília - Menos de 48 horas depois da entrevista do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que deixou no mercado a impressão de que o governo estava acuado diante de uma taxa de câmbio beirando os R$ 4,00, o Banco Central (BC) resolveu retomar as rédeas. De uma única vez, decidiu retirar R$ 14,2 bilhões de circulação na economia, reduziu pela metade a capacidade de os bancos especularem com dólar e, ainda assim, exigiu que o valor dessas operações com câmbio seja contabilizado integralmente na hora de o banco calcular o capital mínimo necessário para fazer frente às suas transações.
O pacote de medidas do BC freou a escalada do dólar e levou a moeda a fechar a R$ 3,82 para venda e R$ 3,81 para compra, 4,26% mais barato do que o histórico fechamento de ontem, a R$ 3,99. O risco Brasil, por sua vez, cai 2,24% e opera a 2.220 pontos. Entretanto, apesar da queda expressiva, essa cotação ainda está nove centavos acima da que a moeda tinha na última terça-feira - o que mostra que o BC pode ter inibido o mercado, mas os pontos de tensão que provocaram a disparada - transição presidencial, iminência de guerra no Iraque e vencimentos pesados da dívida pública até dezembro - persistem.
Mas a combinação dessas medidas deverá, num primeiro momento, restringir e encarecer os empréstimos ao consumidor e aumentar a oferta de dólares pelos bancos, o que ajuda a reduzir a cotação da moeda estrangeira. Além disso, poderá elevar a procura por títulos públicos, já que os bancos que forem obrigados a se desfazer de moeda estrangeira terão de direcionar seus recursos para alguma outra aplicação.
A redução do volume de reais em circulação ocorrerá porque o BC elevou o valor dos depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a recolher à autoridade monetária. Uma parcela dos depósitos à vista, a prazo e em cadernetas de poupança tem de ser depositada numa conta dos bancos no BC. No caso dos depósitos à vista (conta corrente), o porcentual recolhido ao BC, que já havia subido de 45% para 48% em agosto, passou para 53%. Isso vai retirar R$ 2,3 bilhões da economia.
Para os depósitos a prazo (certificados de depósitos bancários, CDBs), o porcentual aumentou de 15% para 18% há dois meses e, agora, para 23%. Essa diferença equivale a R$ 6,4 bilhões. Já o recolhimento sobre a caderneta de poupança foi elevado de 20% para 25%, em agosto e, ontem, para 30%, retirando mais R$ 5,5 bilhões do mercado. Os novos porcentuais passam a valer a partir do dia 21.
Com isso, os bancos ficam com menos recursos para especular com câmbio e também para emprestar. ''Isso terá efeito no médio e no longo prazo e terá impacto no crédito já escasso'', afirma o economista Dany Rappaport.
Além dos compulsórios, o BC também reduziu o limite que os banco têm para operar com câmbio,de 60% para 30% do patrimônio líquido. ''Isso mexe diretamente nas carteiras indexadas ao dólar e deverá obrigar os bancos a desfazerem posições'', diz o diretor do BES Investimento, Carlos Guzzo. O BC determinou ainda que 100% dessas operações sejam incluídas no cálculo do patrimônio que os bancos devem apresentar para fazer frente aos seus negócios. Antes, apenas metade das transações era contabilizada. No início da semana, o BC aumentou o peso delas para 75% e, ontem, voltou a elevá-lo. Essas novas regras entram em vigor no dia 16.


