A terceira alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), determinada pelo Banco Central na quarta-feira à noite, mostra que o governo voltou a ter o controle da inflação como prioridade número um. Com mais 0,5 ponto, a Selic chegou a 8,5% ao ano e os analistas esperam nova alta na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em agosto. Ao fechar o ano, as expectativas são de que a taxa básica vá até 9,5%.
"Acabou aquela dúvida que o governo tinha entre manter juros baixos para incentivar a economia e controlar a inflação", diz o economista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Curado. Segundo ele, o Banco Central exagerou na velocidade da queda dos juros e agora teve de voltar atrás.
Assim que a presidente Dilma Rousseff assumiu o governo, em 2011, a economia brasileira passou por um ciclo de aperto monetário que levou a Selic ao pico de 12,5%. Na sequência, no entanto, teve início uma trajetória de afrouxamento, que acomodou a taxa em 7,25% ao ano em outubro do ano passado, o menor degrau dos juros da história do País. O nível foi mantido até abril deste ano, quando foi elevada para 7,5%.
"Para chegar aos 7,5%, o Banco Central abandonou o centro da meta da inflação de 4,5%, mas não achava que ela iria estourar o teto. Agora é preciso refazer o caminho, aumentando a Selic", afirma o professor. De acordo com Curado, "juros não se baixa" por decreto. "Hoje, a gente faz uma reflexão e vê que o governo acabou forçando um pouco aquela situação (de baixa)", declara.
O professor não acredita que, ainda no governo Dilma, que termina em 2014, a Selic volte à casa dos 7%. "Pelo menos nesse período de um ano e meio a tendência é de juros mais altos", considera.
Na opinião do professor, o problema é que, apesar da propagada independência do Banco Central, as decisões são políticas. E agora também não estaria sendo técnica. "O governo percebeu que o ônus político da inflação é maior que o dos juros altos", declara.
Ele lembra que a valorização do dólar, decorrente da recente onda de migração de capitais das nações emergentes para os Estados Unidos, pressiona a inflação de todos os países de economia mais aberta, com grande fluxo de comércio internacional, como o Brasil. Mas que a tendência, segundo os analistas, é de estabilização do câmbio. O dólar ontem estava a R$ 2,25. "Não há expectativas de um valor muito maior que este até o fim do ano", declara.
Para o economista e professor da Faculdade Pitágoras, Flávio de Oliveira Santos, a política dos juros do BC vai depender também do cenário externo nos próximos meses. "Se o câmbio continuar aumentando, haverá pressão sobre os preços principalmente dos alimentos, devido à dependência que a agricultura tem de insumos importados", ressalta. Com esse combustível sobre a inflação, não há perspectiva de redução de juros.
De acordo com Santos, o governo também deveria cortar crédito. "Não adianta aumentar a taxa de juros numa ponta e liberar crédito na outra", declara. (Com Agência Estado)

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