BC deve testar novo nível de juros reais
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terça-feira, 25 de novembro de 2003
André Palhano<br> Agência Estado 
São Paulo O Banco Central (BC) está disposto a testar níveis de juros reais abaixo dos 9% a 10%, considerada hoje por boa parte dos economistas a taxa real de equilíbrio de longo prazo no Brasil, aquela que não provoca pressão inflacionária ou deflacionária na economia. Essa disposição, segundo apurou a Agência Estado, vem sendo admitida por fontes graduadas do próprio BC.
O motivo é a percepção de que esse nível de equilíbrio não está mais entre 9% a 10% (pelo cálculo ''ex ante'', que compara projeções 12 meses à frente para juros nominais e inflação), justamente por se tratar de uma faixa baseada em série histórica.
Como os fundamentos na área fiscal e, principalmente, nas contas externas melhoraram bastante nos últimos anos, essa taxa de equilíbrio seria hoje significativamente mais baixa, embora ninguém saiba com precisão qual o número - assunto para o qual sobram discussões no meio econômico.
Essa disposição em romper o nível histórico dos juros reais de equilíbrio em um ambiente de controle inflacionário não implicaria, no entanto, atitudes mais arrojadas do Banco Central nos cortes de juros. Pelo contrário. Segundo as fontes consultadas pela AE, por se tratar de um campo desconhecido, isso reforçaria o gradualismo do BC na política monetária, na base da tentativa e erro.
Na visão de analistas de mercado consultados pela Agência Estado, a possibilidade de o Banco Central testar taxas de juros reais abaixo do nível histórico de equilíbrio é uma notícia positiva, desde que amparada em fundamentos técnicos. ''Sabe-se que há espaço para juros reais muito mais baixos, só não se sabe o quão mais baixos. Diante disso, o BC deve ir tateando os efeitos de suas decisões, sempre de olho nos indicadores de inflação corrente, nas expectativas de inflação e também no comportamento do câmbio'', explica o economista Andrei Spacov, do Unibanco.
A defesa de que os juros reais de equilíbrio estão hoje abaixo da série histórica do intervalo de 9% a 10% refere-se sobretudo ao ajuste nas contas externas dos últimos anos. ''Tivemos um ajuste muito forte nessa área, passando de um déficit de 4,5 % do PIB nas contas correntes para um superávit neste ano. Não faria sentido dizer que os juros de equilíbrio são os mesmos'', comenta o economista Fábio Akira, do JP Morgan.
Os juros reais mais baixos dos últimos anos ocorreram nos primeiros meses de 2001, quando a taxa básica estava em 15,25% ao ano em termos nominais. Nessa época, a taxa real estava em torno dos 10%, o mesmo nível de hoje.
Embora seja alvo de vários cálculos diferentes, a taxa que interessa ao BC é a que compara expectativas de inflação (relatadas na pesquisa semanal) e de juros nominais (swap x pré de 360 dias). Essa taxa experimentou números abaixo de um dígito, porém em situações de descontrole inflacionário.
Ontem, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, afirmou que o aperto fiscal no País se justifica pelo fato de o presidente Lula ter estabelecido à sua equipe como ''obrigação'' a busca de juros reais de um dígito. ''E nós já caminhamos para isso'', disse.


