Mesmo depois que o Conselho de Política Monetária (Copom) começou a elevar a taxa Selic, em setembro passado, o crédito pessoal continuou crescendo a um ritmo maior do que o PIB, passando de R$ 38,7 bilhões para R$ 49,5 bilhões em sete meses. Pelos dados do BC, é a única modalidade, junto com financiamento para aquisição de veículos, cuja média diária de concessões de empréstimos ainda não havia caído em março por causa do aperto monetário.
Os dirigentes do BC reconhecem que esse movimento de expansão do crédito, induzido por uma decisão do governo e puxado pelos bancos públicos, é contraditório com o esforço de conter a inflação, mas argumentam que a situação seria pior se a taxa Selic não estivesse crescendo. ''A política monetária tem sido eficiente. Não fosse ela, o crédito pessoal estaria crescendo muito mais'', diz um importante porta-voz.
Segundo ele, não é verdade que a taxa Selic afete mais os investimentos produtivos do que o consumo, como alegam determinados setores do governo, críticos da política monetária. ''O custo de captação das empresas é dado muito mais pela curva de juros futuros do que pela Selic, que apenas acompanha as expectativas'', diz a fonte do BC.
Para o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT), é inegável que a taxa Selic acaba encarecendo o crédito para a indústria. E, por isso mesmo, o BC deveria buscar outros meios menos ortodoxos para segurar os preços. ''O erro é centrar o combate à inflação na taxa de juros. Existem outros instrumentos para atenuar as pressões.''
Defensor do estímulo ao crédito consignado, Mercadante alega que ele faz parte de uma estratégia de ''choque de crédito'' e de ''inclusão social'' que o governo não pode abrir mão por problemas conjunturais. ''A política monetária é conjuntural, e a política de crédito é estrutural. O erro está na política monetária.''
Para José Roberto Afonso, o problema é verificar se a expansão do crédito consignado não serve apenas para as pessoas abaterem outras dívidas mais caras, como as do cartão de crédito ou para fechar o buraco orçamentário familiar do final do mês. ''Na partida, tudo é uma maravilha, tudo cresce, mas o consumo futuro provavelmente será afetado se a renda dessas pessoas não crescer também.''

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