Brasília O Banco Central (BC) apontou ontem o surgimento de um novo vilão da inflação: o comerciante que tenta recompor as margens de lucro perdidas com a inflação passada. Esses empresários - e também as categorias de trabalhadores que conseguiram reajustar salários pelos índices de preços - têm sido os responsáveis pela persistência da inflação, cuja queda ainda insuficiente impede o BC de iniciar a tão esperada redução dos juros.
''Essa persistência da inflação tem sua origem nos reajustes de preços e salários ocorridos desde o início deste ano, que se basearam na elevada taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses e não na sua projeção futura'', informa a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, cujos diretores decidiram manter os juros básicos em 26,5% na semana passada.
Na quarta-feira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, já havia alertado o Congresso, durante uma audiência pública na Câmara, para o fato de que essa prática é característica das economias com inflação crônica, ao provocar constantes aumentos de preços. Segundo ele, nas economias com inflação controlada, os ''formadores de preço'' aplicam nos reajustes a perspectiva da inflação futura, não a passada. E pediu que a sociedade se conscientize disso.
O próprio Copom indicou, no documento divulgado ontem, que a prática dos comerciantes não está dando certo, por causa da desaceleração da economia. ''Houve esforço de recomposição de margens de lucro num cenário de arrefecimento da demanda agregada. Esse comportamento trouxe como consequência uma queda significativa de vendas. No varejo, o volume de vendas caiu 6% no primeiro trimestre do ano em comparação a igual período do ano passado.''
Mas foi firme em afirmar que os juros não cairão enquanto persistirem os reajustes: ''O Copom entende que a política monetária não deve sancionar reajustes de preços e salários baseados na inflação passada, dado o risco de se perpetuar a inflação em patamares elevados.'' A próxima reunião do comitê está marcada para 17 e 18 de junho.
Segundo o Copom, os grupos importantes da cesta de consumo que têm apresentado forte elevação mensal de preços, ainda que em ritmo de desaceleração, são bebidas, enlatados e conservas, artigos de limpeza, móveis e utensílios e artigos de higiene pessoal.

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