BC baixa medidas para alongar dívida
Agência Folha
De Brasília
O Banco Central fará um teste de mercado em janeiro para tentar retomar as emissões de títulos prefixados com prazo superior a um ano. Esse tipo de papel é rejeitado pelos operadores desde os primeiros sinais da crise russa, em maio de 1998.
Antes de oferecer os títulos de um ano, porém, o BC vai consultar o mercado para checar se haverá interesse e exigir que os bancos empenhem a palavra, confirmando a disposição de comprá-los. A consulta prévia do mercado é um dos 21 pontos do pacote editado ontem pelo BC e pelo Tesouro para tentar alongar o prazo de vencimento de sua dívida prefixada. Por enquanto, ainda estamos travando a batalha dos seis meses, disse o diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, referindo-se a um leilão realizado ontem com papéis de seis meses.
Os títulos prefixados tiveram a credibilidade arranhada pela primeira vez durante a crise asiática, em 1997, quando o BC duplicou os juros para enfrentar um ataque especulativo à moeda nacional. Os bancos que tinham esses papéis sofreram pesados prejuízos, pois os juros dos prefixados não acompanham os juros do mercado.
Em maio de 1998, quando a crise russa deu seus primeiros sinais, o mercado passou a rejeitar completamente os prefixados, com receio de prejuízos com uma nova alta de juros. Os investidores passaram a dar preferência aos pós-fixados, cuja remuneração acompanha as altas e baixas de juros do BC. Desde março passado o BC vem, aos poucos, tentando convencer o mercado a voltar comprar prefixados.
A princípio, os papéis foram vendidos com prazo de um mês. Hoje, já há títulos de seis meses, embora com alto custo para os cofres públicos. O governo vem pagando elevado prêmio nos títulos prefixados, disse o secretário-adjunto do Tesouro, Isac Zaguri, ao anunciar as medidas.
Ele afirmou, porém, que o Tesouro não fez nenhuma estimativa de quanto poderá economizar com o pacote. As medidas de ontem têm o objetivo de dar maior transparência sobre as taxas do mercado de títulos prefixados e minimizar os riscos de quem opta por esse tipo de investimento.
Dirigentes de entidades que representam o mercado receberam bem as medidas. O governo resolveu colocar em prática medidas que estamos propondo há cinco ou seis anos, disse Concetto Mazzarella, presidente da Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto).
O presidente da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), Alfredo Rizkallah, aposta em uma queda dos juros e uma ampliação dos negócios com títulos federais. As medidas vão reduzir o grau de incerteza, afirmou. Para o consultor e ex-diretor do BC Alkimar Moura, a forma mais segura de valorizar os títulos prefixados é o governo deixar de colocar papéis pós-fixados. Essa é a intenção de todos nós, mas só poderá acontecer de forma gradual, disse Figueiredo.
AS PRINCIPAIS MEDIDAS
1) Concentração
Concentrar os vencimentos de títulos prefixados na primeira e na última semana de cada mês
1) Cronograma
Criar um cronograma mensal dos títulos a serem emitidos. Hoje, os leilões são anunciados dois dias úteis antes de realizados
3) Proposta firme de compra
Antes de lançar títulos com prazos mais longos, o Tesouro irá consultar o mercado, para ver se há interesse
4) Cláusula de revenda
O governo emitirá títulos com prazo mais longo permitindo que o investidor revenda o papel ao Tesouro antes do vencimento
5) Preços de referência
O BC pretende divulgar, por meio da Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto), as taxas dos títulos que estão sendo praticadas pelas instituições financeiras
6) Posições vendidas
O BC vai estimular as chamadas posições vendidas em títulos -ou seja, que os bancos vendam títulos do governo ao mercado sem tê-los em carteira
7) Compra e recompra de títulos
O BC irá fazer compras e vendas informais de títulos regularmente (os
chamados go around, que não usam a estrutura formal dos leilões) para evitar que os preços de determinados papéis subam ou caiam exageradamente, sem acompanhar os preços dos demais
8) Papéis cambiais
O BC quer que os papéis cambiais fiquem mais parecidos, para que os preços sejam parecidos. Para tanto, pretende emitir papéis sem cupom (juros pagos antes do vencimento, geralmente a cada seis meses). Também vai permitir que o próprio mercado transforme papéis com cupom em papéis sem cupom
9) Alavancagem
Extinção do sistema que limita o volume de papéis que os bancos podem comprar. O limite será determinado pela diferença entre as dívidas em títulos e os créditos em títulos





