São Paulo - A mudança no comando do Banco do Brasil piorou a percepção de risco do mercado sobre os efeitos que um eventual aumento da ingerência política podem ter no resultado da empresa. O movimento das ações do BB desde anteontem, na Bovespa, comprova a preocupação dos investidores sobre a influência do Governo no banco estatal, mas a maioria dos analistas do setor prefere aguardar a sinalização do novo presidente da instituição, Aldemir Bendine, sobre a política de adoção do spread bancário para rever suas projeções para os papéis. Historicamente, os múltiplos das ações do Banco do Brasil são negociados com desconto em relação aos seus pares no setor, justamente pelo risco político implícito nas avaliações sobre a instituição.
Ontem, as ações ordinárias do BB apresentavam queda de 2,4% na Bovespa no meio do dia, após perderem 8,15% ontem. O Ibovespa subia 3,2%. ''A preocupação que surge é a questão do banco se tornar cada vez mais um veículo para implantar as políticas do governo, cedendo às pressões para a redução de spreads e expansão da carteira de crédito que, no cenário atual, podem penalizar margens e rentabilidade, além de aumentar o risco de inadimplência'', resume a Link Investimentos em relatório encaminhado ontem a clientes.
Mas a queda nas taxas de juros praticadas pelo BB pode não ser tão fácil de ser implementada. A analista Laura Lyra Schuch, da Ativa Corretora, lembrou que, para aumentar a concorrência no sistema bancário por meio da adoção de juros mais baixos, será necessária uma mudança na política interna de formação do spread. Segundo ela, um grupo de aproximadamente 15 conselheiros da instituição define uma meta para o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) da instituição.
Para este ano, foi estabelecido um intervalo entre 19% e 29% para o ROE. ''Se for inferior a 18%, não há participação nos lucros para os funcionários'', acrescentou Laura. O fato de o BB integrar o Novo Mercado, segmento da Bolsa com exigências mais elevadas de governança corporativa, também pode dificultar uma ação nesse sentido, acrescenta.
A analista disse que vai esperar a sinalização do novo presidente para analisar qual será o comportamento futuro da rentabilidade do banco e, por consequência, as projeções para o papel. Os analistas Juan Partida e Eduardo Nishio, do UBS Pactual, também aguardam os próximos passos. ''A questão é se o novo presidente será capaz de resistir às pressões políticas por spreads mais baixos e aumento do crédito sem reduzir a rentabilidade''. O UBS vê a mudança como negativa, mas pondera que foi a melhor alternativa já que, assim como o ex-presidente Antonio Lima Neto, Bendine também é funcionário de carreira do BB, com 30 anos de casa.
A Geração Futuro, por sua vez, está revendo a sua recomendação para o papel, mas o analista especializado no setor da casa, Felipe Ruppenthal, disse que o impacto de uma eventual redução do spread pode não ser tão ruim como parece à primeira vista. ''Há uma preocupação sobre quais serão os novos patamares de spread, mas, em caso de redução, os outros bancos terão de seguir o BB'', acredita. Para Ruppenthal, caso os concorrentes do Banco do Brasil não acompanhem a instituição na adoção de taxas de juros mais baixas, haverá uma migração de clientes para o banco estatal, movimento que, eventualmente, pode resultar em aumento de receita.
Os analistas são unânimes ao afirmar que o desempenho ruim das ações desde ontem tem origem no aumento das preocupações com o risco político sobre a instituição. As denúncias de irregularidades nas operações de controle a bancos que vieram à tona com a demissão de Lima Neto, de acordo com os especialistas, ficou em segundo plano.

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