Joelmir Beting


‘‘Não existe sucesso definitivo. O que pode ser definitivo é o fracasso.’’
William Parcells, consultor americano.










Batalha da qualidade
Versão revista e ampliada do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP) será lançada quinta-feira, em Brasília, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Doze setores da economia serão escalados para o cumprimento de metas de desempenho dentro de prazos estabelecidos. A ordem é acelerar os ganhos de competitividade para uso no mercado interno e no mercado global.
A primeira versão do PBQP foi introduzida em 1990, sob o safanão dos primeiros impactos da ‘‘collorstroika’’ - a abertura comercial sem aviso prévio e sem preparação adequada. A indústria brasileira (incluídas as fábricas de multinacionais) teve de dar saltos de qualidade na raça e no grito. Não havia outra defesa contra a ‘‘farra dos importados’’ que já faiscava na linha do horizonte. A palavra ‘‘globalização’’ ainda dormia o sono dos justos no vocabulário universal.
Por linhas tortas, o setor industrial deu conta do desafio. As baixas em sete anos foram daquelas empresas que não tinham salvação em ambiente competitivo. Uma descarga sanitária de empresas que se esmeravam em oferecer empregos ruins com salários péssimos. As fábricas sobreviventes, em grande maioria, registraram um aumento de produtividade da ordem de 8,6% ao ano. Ou de 12,4% na média dos últimos três anos. No mesmo período, as empresas com certificados de qualidade da série ISO 9000 saltaram de 18, em 1990, para 2.412, em março de 1998.
Os ganhos ocultos da cruzada nacional pela eficiência - que engajou todos os demais setores da economia brasileira - estão na conquista de uma autêntica cultura de qualidade entre empresários, executivos, sindicalistas e trabalhadores. E com um subproduto não menos generoso: a redução de custos e, por extensão, a redução de preços (sem redução de lucros). Alguns ramos industriais ostentam, hoje, tabelas de preços com deflação em dólar. Na eletrônica de consumo, a deflação em sete anos ficou acima de 60%.
Nada menos de 110 mil profissionais trabalham exclusivamente na implantação e supervisão de processos e sistemas de qualidade nas empresas de todos os setores - da economia rural ao sistema financeiro. Essa ‘‘profissão’’ simplesmente não existia dez anos atrás. Esse mercado de trabalho deve crescer ainda mais com a ampliação do PBQP, diz Júlio Bueno, coordenador do novo programa e presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (Inmetro).
O novo PBQP envolverá, além do setor industrial, atividades igualmente estratégicas: agricultura, turismo, produção audiovisual, ciência e tecnologia, educação e saúde, micros e pequenas empresas e administração municipal.
Secos & molhados
Das metas
Lição de casa do novo PBQP para o setor industrial: elevar a produtividade das fábricas em mais 27% até o ano 2002. Com redução dos defeitos de fabricação de 4,5% para 1%, no máximo. Idêntica redução nos acidentes de trabalho: de 4,5% para 1%.
Realista
Para Júlio Bueno, são metas factíveis. Na produtividade, equivalem a um ganho médio de 6% ao ano (contra 12,4% nos últimos três anos). O programa investe na maior relação horas de treinamento por horas de trabalho. Tenta-se passar da média de 1% para 3%.
Dos meios
Empresas envolvidas pelo novo PBQP devem receber financiamentos do BNDES, com repasse de créditos externos. Será criado um comitê de acompanhamento para a execução das metas e a liberação dos meios.
Estratégia
O reforço de qualidade do aparelho produtivo encaixa-se na estratégia de competitividade global da economia. Pega carona no compromisso da duplicação das exportações até 2002. Com maior participação das pequenas empresas e do ‘‘agrobusiness’’.

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