Bancos viram alvo da tradicional 'malhação do Judas'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de abril de 2004
Candice Dequeche e Andréa Lombardo<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A tradicional 'malhação do Judas', que acontece no período de Páscoa, teve uma nova versão ontem em Curitiba. O vilão, escolhido pelo Sindicato dos Bancários, foi a figura do banqueiro. Para isso, foram feitos quatro bonecos, representando os bancos HSBC, Itaú, Unibanco e Bradesco, que foram malhados por populares e clientes de bancos na manhã de ontem na Boca Maldita, em frente ao HSBC.
Segundo a presidente do Sindicato dos Bancários, Marisa Stédile, a denúncia é contra as altas taxas de juros cobradas pelos bancos, as filas quilométricas, a falta de segurança e de empregados, que acarretam o mau atendimento de clientes. ''Os bancos escolhidos foram esses porque foram os que mais lucraram no ano passado, mas representa uma crítica geral aos demais bancos'', explicou.
Segundo Marisa, o Itaú liderou o ranking do faturamento anual de 2003, com aproximadamemnte R$ 3 bilhões. O Bradesco vem em seguida, com cerca de R$ 2 bilhões de faturamento anual no ano passado. Em terceiro lugar está o Unibanco, com aproximadamente R$ 1 bilhão, e, o HSBC ocupa o quarto lugar, com cerca de R$ 190 milhões.
''Também estamos protestando contra a pressão sofrida pelos bancários para o cumprimento de metas. Isso é um abuso'', disse a sindicalista. Antes da malhação do banqueiro, funcionários do Sindicato dos Bancários fizeram uma manifestação dentro da agência Paraná do Unibanco, no centro da cidade. Segundo Marisa, essa agência do Unibanco é a que concentra o maior número de denúncias no sindicato referente a pressão para o cumprimento de metas. Outros bancos que também apresentam esse tipo de denúncia são o HSBC, que está no topo do ranking, e o Itaú, que está em terceiro lugar, atrás do Unibanco.
''Eu malho quantos banqueiros forem necessários, e faço questão disso'', disse Marlene Alzira Arias, 60 anos. Cliente da Caixa Econômica Federal e do Itaú, Marlene Alzira é cardíaca e tem problemas no joelho, mas, sempre acaba enfrentando filas quilométricas nos bancos. ''Uma vez, cheguei a ficar 2h30 numa fila de penhor da Caixa'', conta. Revoltada com as altas taxas de juros e com o tratamento dado aos clientes, Arias malhou o banco Itaú com muita satisfação. ''Estou incorformada com a realidade. Somos tratados de acordo com o volume da conta bancária'', reclamou.
A Folha tentou repercutir com os bancos as críticas feitas pelo Sindicato dos Bancários na manifestação de ontem. A assessoria de imprensa do HSBC informou que ninguém falaria sobre o assunto. O Itaú encaminhou, por e-mail, um pedido de que o contato fosse feito com a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). As assessorias do Bradesco e do Unibanco não retornaram as ligações.
Sobre as críticas com relação as altas taxas de juros, a Febraban argumenta que ''os bancos não querem, não fomentam e não causam juros altos, apenas se adaptam às circunstâncias, como se adaptaram à inflação e à turbulência macroeconômica''. Segundo o economista da Febraban, Roberto Luis Troster, ''o crescimento do lucro médio (dos bancos) em 2003 foi inferior à inflação e ao crescimento da oferta de serviços e da rede de atendimento; é inferior inclusive à rentabilidade de outros setores e à média lucratividade das companhias abertas''.


