'A gente estava bem quando a situação era ruim.' Famoso pelo seu sarcasmo e jogos de palavras, o cartunista Nik, um dos principais do país, expressou ontem a amarga sensação experimentada por milhares de argentinos que nos últimos três anos viram sua situação econômica piorar aceleradamente e que, depois de uma série de pacotes econômicos que só agravaram a crise, neste fim de semana sofreram com o golpe de misericórdia, o semicongelamento de seus depósitos bancários.
A irritação era visível entre milhares de argentinos que ontem o primeiro dia útil depois do anúncio das medidas correram aos bancos para retirar os US$ 250 semanais que ficaram a salvo da retenção imposta pelo governo do presidente Fernando de la Rúa.
Enquanto os bancos fervilhavam de enraivecidos clientes, os comércios da capital do país estavam às moscas. No fim da noite anterior, o presidente De la Rúa entrou nos lares em rede nacional de TV para anunciar em tom épico que o governo estava ''ganhando a batalha''. O inimigo, neste caso, eram os especuladores internacionais e nacionais, aos quais o presidente chamou de ''abutres''.
Morte Um desempregado argentino de 26 anos de idade suicidou-se ontem com um tiro de escopeta na boca, diante de jornalistas. Câmeras de TV registraram a cena. Matías Bello, divorciado e pai de uma filha, havia convocado a imprensa do município de Tandil, 400 Km ao sul de Buenos Aires, com o argumento de que ia protestar contra a situação econômica no gabinete do prefeito, Julio Zanatelli. Na Argentina, calcula-se que o desemprego chegue a 20%, no quarto ano de recessão no país.

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