Bancos devem baratear e alongar crédito
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
Sheila D'Amorim<br>Agência Estado 
Brasília A queda da taxa de juros e a consolidação da estabilidade econômica permitirão uma redução do direcionamento obrigatório de crédito dos bancos estabelecido pelo Banco Central (BC) para financiamento de setores como o habitacional e o agrícola. Segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, isso ocorrerá nos próximos três anos, ainda no governo Lula.
Atualmente, 65% dos recursos depositados na caderneta de poupança devem ser destinados ao financiamento da casa própria e 25% dos depósitos à vista vão para agricultura. A área agrícola também conta com 40% dos recursos da caderneta de poupança rural, oferecida no mercado pelos bancos do Brasil (BB), da Amazônia (Basa) e do Nordeste (BNB).
Na avaliação do presidente do BC, essas modalidades de financiamento surgiram em razão do desequilíbrio financeiro do Estado, que gasta mais do que arrecada. Isso levou o País a praticar altas taxas de juros, o que, por sua vez, desestimulou os bancos a realizarem operações de crédito e os levou a preferir aplicar em títulos públicos. Para que áreas consideradas importantes não ficassem sem financiamento, passou-se a exigir um direcionamento mínimo obrigatório.
''À medida que esse desequilíbrio financeiro for resolvido, que a questão macroeconômica e a estabilidade de preços se solidifiquem, isso levará a uma queda gradual da taxa de juros e vai se tornar menos necessário esse direcionamento ou crédito subsidiado'', afirmou Meirelles, destacando que essa já é a realidade de vários países em que os juros cobrados pelo mercado encontraram um ponto de equilíbrio, atendendo à necessidade da economia. ''A nossa expectativa é de que isso ocorra neste governo, mas não temos uma meta'', afirmou, ressaltando que a única meta que o BC trabalha é a de inflação.
O presidente do BC disse ainda que essa nova realidade que o País começa a viver e que combina estabilidade de preços com ajuste das contas públicas e taxas de juros menores exigirá mais eficiência dos sistemas de análise de risco dos bancos. ''O sistema financeiro precisa se preparar para o crescimento do volume de crédito da economia com custos menores e prazos mais longos'', afirmou. ''Esse será o grande desafio e o BC tem trabalhado muito nisso, seja na área de risco, de fiscalização ou normatização.''
Segundo Meirelles, numa economia estável a tendência é de que as empresas se endividem mais, tomando empréstimos nos bancos, o que aumenta a exposição do sistema. ''Isso significa que as instituições financeiras devem estar tecnicamente preparadas para analisar risco com maior precisão'', defendeu, ressaltando que esse é o processo normal de aumento do estoque de crédito com maior segurança.
Segundo o presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Gabriel Jorge Ferreira, o sistema financeiro está preparado e disposto a financiar essa nova onda de consumo que, espera-se, será um dos pilares da retomada do crescimento a partir do ano que vem. ''Os bancos estão revendo suas diretrizes porque sabem que o crédito será a base do desenvolvimento'', garantiu Ferreira.
Citando o projeto de parceiras público-privada (PPPs), criado pelo governo, o presidente da Febraban disse que os bancos ''terão papel fundamental de financiar projetos de longo prazo e, para isso, terão de criar produtos que viabilizem essas empreitadas''.


