Arquivo FolhaOTIMISMO EXAGERADOCamdessus, do FMI: Brasil não encontrou espaço para proteger os pobresCada ponto de queda no PIB representa 1 milhão a mais de miseráveisPara os 30 milhões de pobres do Brasil, a recuperação da crise financeira, tão festejada por banqueiros e autoridades governamentais, ainda vai demorar. Na melhor das hipóteses, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro sofrerá uma queda de 3%. Em termos humanos, disse o vice-presidente do Banco Mundial (Bird) para a América Latina, Shavid Burki, isso significa três milhões de pessoas a mais, ganhando até dois dólares por dia.
Segundo Burki, os mercados estão reagindo com um otimismo exagerado. Os fundamentos básicos das economias em crise, lembrou, não foram alterados tão rapidamente - muito pelo contrário. Levam tempo para mudar. Pelos cálculos de Burki, cada ponto percentual de queda do PIB representa um milhão a mais de miseráveis. No Brasil, já existem 15 milhões vivendo com apenas um dólar por dia e outros 15 milhões ganhando dois dólares diários. No final deste ano, esse grupo aumentará de 30 para 33 milhões.
A absorção dessa massa de excluídos pelo mercado, disse Burki, demorará - especialmente na América Latina, onde a distribuição de renda é mais desigual do que na Ásia. Segundo ele, nos países asiáticos o número de pobres diminuirá se as economias crescerem o dobro que a população. Já nos países latino-americanos, esse crescimento terá que ser três vezes maior.
Na América Latina, onde a população aumenta 1,6% ao ano, o crescimento econômico terá que ser de 3% a 5%, para que haja uma melhoria de qualidade de vida. Burki elogiou os progressos feitos pelo Brasil, na sua recuperação, mas manifestou a sua preocupação com o clima de volatilidade mundial que persiste. As pressões sociais e políticas, explicou, ainda podem afetar as fragilizadas economias.
O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, também falou ontem na necessidade de se criar uma ‘‘rede social’’ nas economias emergentes, para proteger os mais vulneráveis das crises. Na Ásia, ele disse, essa rede era virtual - ou quase inexistente. Já no Brasil, explicou, a situação era outra: apesar da vontade do governo de investir na área social, o número de pobres era muito grande e os recursos escassos.
‘‘Até agora o governo brasileiro não encontrou espaço no orçamento para proteger os pobres como o presidente Fernando Henrique Cardoso queria’’, disse Camdessus. Ele concluiu que o governo só terá condições de tentar resolver esse problema, quando terminar de ajustar suas contas.

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