Banco Central teme volta da inflação
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2004
Sheila D'Amorim<br> Agência Estado 
Brasília - As argumentações do Banco Central (BC) para justificar a cautela do Comitê de Política Monetária (Copom), que interrompeu a trajetória de queda dos juros na semana passada, mantendo a taxa Selic em 16,5%, mostram que o governo empacou diante de um velho dilema: como crescer sem inflação? Na ata da última reunião, divulgada ontem, os diretores do BC, além de alertar que não aceitarão as pressões que já se iniciaram na indústria por reajustes de preços, deixam clara a insegurança do governo em relação ao comportamento da economia diante de um possível aumento da demanda, fruto do ambiente de maior crescimento econômico.
O tom de extrema preocupação com a inflação neste início de ano acabou surpreendendo boa parte dos analistas do mercado financeiro e foi interpretado como uma mudança brusca de sinalização em relação às atas anteriores.
O ponto central do documento de 12 páginas é justamente a avaliação da inflação no final de 2003, quando a economia começou a dar sinais de recuperação, após um ano em que o crescimento da produção nacional ficou em torno de zero. ''As pressões por reajustes de preços observadas em dezembro e esperadas para os primeiros meses de 2003, a despeito de seu caráter parcialmente sazonal e não recorrente, atingirão a economia em um estágio bastante avançado do processo de relaxamento da política monetária e de recuperação das condições de demanda e, portanto, mais propício a que movimentos de reacomodação de preços relativos tenham como repercussão aumentos do nível geral de preços'', afirmam os diretores do BC.
Segundo eles, não há informações suficientes para ''um diagnóstico preciso sobre os fatores que condicionaram o comportamento da inflação em dezembro, os resultados parciais de janeiro e as projeções para fevereiro'' mas as evidências são de que pode se tratar de ''um movimento persistente''. Entre outros motivos, eles citam o fato de que os reajustes de preços na indústria em dezembro poderão provocar aumentos para os consumidores ao longo dos próximos meses.
Essa é a grande diferença em relação ao cenário vivido pelo País em setembro de 2003, quando também houve um repique inflacionário. O Copom, afirmam os diretores, avaliou agora o risco de prosseguir com a queda dos juros e, depois, ter de mudar o curso caso haja descontrole na inflação e optou por uma atitude mais cautelosa.
Em janeiro, os diretores do BC esperam mais pressões, vindas sobretudo dos alimentos e da indústria. Apesar de não descartarem a possibilidade de a alta na inflação, tanto no varejo quanto no atacado, ''significar apenas um evento isolado, provocado por motivos sazonais ou extraordinários'', na dúvida eles preferem esperar para ver os desdobramentos. Ainda mais quando uma sondagem industrial divulgada esta semana mostra que 43% das empresas pesquisadas pretendem reajustar seus preços até março.


