Após o dólar ter saltado para R$ 4,270 nas máximas de terça (26) e na quarta-feira (27), o BC (Banco Central) precisou dispor de sua artilharia para tentar conter o ímpeto da moeda americana. No início do pregão, o BC voltou a intervir no mercado, com venda de US$ 1 bilhão à vista, o que fez a cotação do dólar ceder e recuar 0,980% nesta quinta-feira (28), a R$ 4,2160, menor valor desde sexta (22). Dentre as principais moeda globais, o real foi a que mais se valorizou na sessão.
Além da atuação da autoridade, o dólar teve sua queda acentuada pela revisão dos dados das exportações brasileiras registradas em novembro, elevando em US$ 3,8 bilhões o fluxo da vendas externas acumuladas no mês em relação ao informado anteriormente.
O estopim da escalada do dólar essa semana foi o ministro da economia, Paulo Guedes, que disse que a moeda acima de R$ 4,20 não preocupa e que "é bom se acostumar com dólar mais alto e juros mais baixos".
Para o economista, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e colunista da FOLHA, Marcos Rambalducci, exerce forte influência sobre o dólar o momento pelo qual passa a América Latina, com eleições ocorrendo na Argentina, Bolívia, Colômbia e Venezuela. “Quando o investidor estrangeiro olha para a América Latina, não olha só para o Brasil, olha para o conjunto e fica receoso de trazer capital de fora para investir em qualquer um desses países.” Investidores brasileiros também passam a retirar suas aplicações das bolsas de valores no Brasil e vender para o exterior, acrescenta o economista.
O aumento da compra ou repatriação de dólares fez com que o preço da moeda norte-americana aumentasse, como reflexo da grande procura. Na visão do economista, o resultado fraco das vendas no leilão do pré-sal também exerceu uma forte pressão para que o Real se desvalorizasse frente ao dólar.
“A alta afeta a todos de maneira indiscriminada, mas tem impacto maior sobre uns do que sobre outros”, afirma Rambalducci.
Com a elevação do dólar, as exportações são beneficiadas, enquanto as importações são prejudicadas. “Os preços das commodities permanecem iguais, mas vamos receber mais reais pelo que vendermos”, diz o colunista da FOLHA. O governo, que no momento tem uma reserva cambial de US$ 370 bilhões de dólares, também é beneficiado com o alto valor da moeda.
Já para quem importa ou faz turismo, a alta não é uma boa notícia, completa Rambalducci. Também há se de lembrar que muitos dos insumos utilizados na produção brasileira são importados. Cerca de 30% a 40% dos produtos nacionais estão atrelados ao valor do dólar.
Os reflexos são sentidos em produtos altamente consumidos pela população, como a carne e a gasolina. O aumento das exportações da carne para a China associado ao aumento do dólar fez o preço do produto subir quase 20% em dez dias. A elevação do dólar também levou a Petrobras a reajustar o preço da gasolina em 4% nesta quarta-feira (27). Esses aumentos “contaminam” toda a economia e podem estimular o processo de inflação, alerta o economista.
Mas, na sua visão, o alto valor do dólar não é mantido por muito tempo. “Sabemos que, cedo ou tarde o mercado se regula.” A venda de dólares da reserva cambial pelo BC também ameniza a alta.(Com Agências)
PREÇO DE INSUMOS PODE AFETAR VALOR DE PRODUTOS
Segundo o economista do Deral, Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, Marcelo Garrido, a safra da soja já vem sofrendo influência do dólar há alguns meses. Essa influência, entretanto, traz resultados positivos, uma vez que a soja é uma commodity altamente exportada e, com a alta do dólar, o produtor recebe mais pela venda das sacas na moeda norte-americana.
“Em contrapartida, quem importa alguns produtos fixados em dólar, como fertilizantes e insumos para tocar a agricultura, pode sofrer o efeito inverso”, reitera Garrido. Isso porque os produtos importados se tornam mais caros, já que é preciso dar mais dinheiro em reais para pagar pelo preço em dólar.
No levantamento mensal feito na semana passada, o Deral revelou que a comercialização antecipada da safra da soja passou de 19% para 22% no período de um ano. “É um valor bem parecido, mas que vem sendo beneficiado pelo dólar”, comenta o economista do Departamento. Segundo ele, a soja representa mais de 90% da área de plantio da safra de verão.
No setor industrial, a indústria que produz bens de alto valor agregado com percentual maior de componentes importados é a que mais sofre com a alta do dólar, afirma Reinaldo Tockus, gerente executivo de Assuntos Internacionais do Sistema Fiep. É o caso da indústria química, farmacêutica e de cosméticos, por exemplo. “O ideal é encontrar um patamar aceitável que o mercado interno e externo possa se movimentar”, ressalta ele.
'MOMENTO DE ATENÇÃO, E NÃO DE PREOCUPAÇÃO'
Mas, para Reinaldo Tockus, da Fiep, a oscilação do dólar é muito mais motivada por "aspectos emocionais" que econômicos. Na sua visão, a elevação do dólar pode ter mais relação com o humor do investidor, e da mesma forma que a moeda norte-americana subiu, pode cair. “Mas acho improvável que o Brasil perca a confiança do investidor e do empresário”, conclui Tockus, que atribui o otimismo a decisões políticas e econômicas e a índices que mostram crescimento econômico. “Esse é um momento de atenção, e não de preocupação.”
O presidente da Abav PR (Associação Brasileira de Agências de Viagens do Paraná), Antônio João Monteiro de Azevedo, pondera que ainda é prematuro fazer uma avaliação do impacto do dólar sobre o setor, já que o preço da moeda ainda não se estabilizou. “O que pode ocorrer é uma mudança para destinos mais baratos por parte dos turistas, e é aí que é importante consultar as agências de viagens que sempre têm opções de viagens atrativas e com bons preços.”
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