Banco Central acha que não há crise
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domingo, 31 de agosto de 2003
Suely Caldas<br>Agência Estado 
Rio - O tombo de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre passou e o Banco Central está empenhado em convencer a sociedade a ignorar o passado e olhar o futuro na retomada do crescimento econômico, como fez há meses com a inflação e foi bem sucedido. ''O futuro é melhor do que o passado'', afirma o diretor de Política Monetária do BC, Afonso Sant'Anna Bevilaqua, em sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo.
Professor da PUC-RJ, que já deu cinco diretores ao BC nos últimos nove anos, Afonso Bevilaqua tem 43 anos e em sua carreira há uma passagem de dois anos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) quando tinha pouco mais de 30 anos.
Afonso Bevilaqua não tem dúvida que a economia já entrou firme e sem volta num ciclo virtuoso de recuperação e crescimento, porque ''não há mais nenhum problema de curto prazo a resolver e todas as condições macroeconômicas estão dadas''.
Sobre os dados do PIB apontando a recessão, Bevilaqua disfarça: ''Não qualificaria como recessão. Vivemos uma desaceleração forte no segundo trimestre. Recessão é um termo utilizado por uma desaceleração prolongada, disseminada por todos os setores da economia e de forte intensidade.
Para Bevilaqua, a maior determinante da queda na renda real nos últimos meses foi a aceleração da inflação. A função precípua do BC é evitar quedas adicionais na renda real, por meio da estabilização da inflação.
AE - Isto quer dizer que o BC vai continuar olhando apenas a inflação?
Bevilaqua - Não é isso. A inflação é uma variável que condensa uma quantidade enorme de informações, transmitidas por outras variáveis macroeconômicas. O BC tem uma meta de inflação e para atingi-la ele olha sempre o que está acontecendo com renda, emprego, produção, uma série de fatores que acabam sendo consolidados num cenário para a inflação. Mas é um equívoco imaginar que possamos acelerar a criação de emprego antes de estabilizarmos a economia.
AE - A redução de 2,5% na taxa Selic surpreendeu o mercado, que a considerou ousada. Mas o efeito dela no spread bancário é minúsculo. O BC não tem nada a fazer no curto prazo para reduzir os juros, a não ser esperar?
Bevilaqua - A queda de 2,5% não foi ousada, foi justificada pelas condições que se apresentaram do ponto de vista de trajetória futura de inflação. Quanto ao crédito, nos próximos meses as condições serão normalizadas com a redução da taxa de juros básica e do compulsório e quando os sinais de recuperação de atividade econômica se tornarem mais evidentes.
AE - Qual a projeção do BC para o PIB este ano?
Bevilaqua - Vamos fazer uma projeção nova no final de setembro. Vai depender da retomada da atividade ao longo do terceiro trimestre. Assim como os analistas foram surpreendidos por uma desaceleração maior do que a esperada no segundo trimestre é possível que sejam também surpreendidos por uma aceleração maior ao longo do terceiro trimestre.


