Balanço incompleto atrasa recuperação da Petrobras
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Fábio Galiotto<br> Reportagem Local 
A Petrobras divulgou na madrugada de ontem o balanço contábil do terceiro trimestre de 2014 sem contabilizar perdas relativas a suspeitas de corrupção e de superfaturamento, o que gerou críticas de investidores e fez com que as ações da estatal caíssem mais de 11% na Bolsa da Valores de São Paulo (Bovespa). A entrega do relatório estava atrasada desde 14 de novembro do ano passado justamente para que fosse possível dar baixa das perdas sobre o patrimônio, o que não ocorreu e deve retardar a recuperação da companhia.
No relatório da estatal, há a citação de duas contabilizações entre o valor justo de ativos analisados e o valor imobilizado dos projetos entre 2004 e 2012, período referente aos contratos firmados com empresas citadas na Operação Lava Jato, que apura desvios financeiros na empresa. Um deles cita o mínimo de R$ 27,2 bilhões e o máximo de R$ 88,6 bilhões, enquanto analistas de mercado acreditam que o impacto será próximo a R$ 60 bilhões.
Por isso, após reunião que durou mais de dez horas, o Conselho de Administração da companhia decidiu não fazer qualquer desconto sobre o valor de mercado da petroleira, até encontrar uma metodologia mais apropriada. Vale lembrar que, conforme a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Petrobras está sujeita a multa de R$ 500 por dia de atraso na divulgação dos dados a investidores.
O relatório divulgado aponta lucro líquido atribuível aos acionistas de R$ 3,087 bilhões no terceiro trimestre de 2014, 38% menor do que os R$ 4,959 bilhões do segundo trimestre e 9% abaixo dos R$ 3,395 bilhões do terceiro trimestre de 2013. No acumulado de janeiro a setembro, houve desaceleração de 22% entre os R$ 17,289 bilhões relativos a 2013 e os R$ 13,439 bilhões de 2014. A estatal precisa divulgar até 25 de fevereiro o balanço referente a todo o ano passado.
O presidente do Instituto Fractal, Celso Grisi, afirma que o balanço incompleto causa problemas no mercado. "Não se consegue entender o tamanho das perdas comerciais, dos escândalos e das perdas pela baixa na cotação do petróleo no mercado internacional", exemplifica.
Para ele, o registro no relatório de uma baixa patrimonial estimada, ainda que sofresse ajustes no balanço da auditoria independente PwC, seria menos prejudicial porque mostraria o reconhecimento de que ocorreram erros na gestão da empresa. "A nota de risco da Petrobras deve cair, porque é uma empresa que não consegue fechar um balanço, sem contar o risco de ações judiciais nos Estados Unidos", diz, ao citar acusação no país de vender papéis de valor inflado devido a contratos superfaturados.
O consultor de investimentos Rafael Cordeiro, da Inva Capital, afirma que qualquer valor considerado como superfaturamento em obra precisará ser descontado da estimativa de bens da companhia. "O valor patrimonial era ontem (terça-feira) quase um terço do de mercado. Se considerar queda de R$ 100 bilhões, por exemplo, em ativos, o patrimônio diminui, mas não o dinheiro em caixa da empresa", explica.
Cordeiro considera que a estatal é encarada ainda como uma empresa forte, apesar do momento conturbado, porque paga juros baixos ao buscar crédito no exterior. "O mercado não enxerga a Petrobras como pré-falimentar, porque os juros continuam baixos. Isso porque se sabe que a empresa cortará custos e investimentos", diz.
Um fator ainda pesa positivamente para a companhia, porém. O estrategista da Guide Investimentos, Luis Gustavo Pereira, afirma que a redução no preço do barril de petróleo no mercado internacional vai aumentar os lucros da estatal. Ainda assim, nenhum dos entrevistados se arrisca a indicar, no momento, a compra de ações da companhia. "O prejuízo deve fazer com que acionistas fiquem sem dividendos no ano", diz Pereira, que prevê mais oscilações nas próximas semanas.


