Agência Folha
De São Paulo
O comércio exterior deu um prejuízo de US$ 6,2 bilhões ao País nos primeiros oito meses deste ano devido à combinação perversa da queda dos preços das exportações com o aumento do preço das importações. O resultado negativo foi provocado pelo fenômeno chamado pelos economistas de deterioração dos termos de troca: os preços das exportações caíram 13% e os preços das importações subiram 6%, em média, de janeiro a agosto de 1999.
Essa é uma das conclusões de um estudo inédito do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) sobre a mudança da política cambial no Brasil e os efeitos da maxidesvalorização do real no desempenho do comércio exterior do País no período. ‘‘É um número muito alto’’, diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Iedi.
‘‘Em poucos momentos da economia internacional houve uma piora tão forte como essa. Isso só costuma acontecer em decorrência de fatos extremamente graves, tais como uma crise internacional violenta ou um choque do petróleo, e não de crises localizadas.’’
A estimativa do Iedi do efeito da deterioração dos termos de troca no comércio externo brasileiro em 1999 mostra valores muito elevados. De janeiro a agosto de 1999, a perda de exportação devido à queda de preços de produtos básicos e semimanufaturados soma US$ 2,9 bilhões. Isso bastaria para transformar o déficit comercial do período, que foi de US$ 700 milhões, em superávit superior a US$ 2 bilhões, caso os preços de exportação tivessem mantido os mesmos níveis do mesmo período de 1998. Pelo mesmo critério, as exportações de produtos manufaturados teriam sido maiores em US$ 1,6 bilhão, e as importações, menores em US$ 1,7 bilhão.
Assim, o valor total da perda do País devido à deterioração dos termos de troca alcança US$ 6,2 bilhões, segundo os cálculos do Iedi. O Iedi fez também estimativas para o volume e os preços das exportações e importações. Segundo o Iedi, o volume das importações sofrerá redução de 17,4% neste ano, devido à desvalorização cambial de 50%, e crescerá 0,4% no ano 2000, por causa de uma pequena valorização da taxa de câmbio. O volume das exportações crescerá 8,3% em 1999, por conta da desvalorização cambial, e 2,9% em 2000, devido ao efeito tardio da desvalorização deste ano, além da melhora dos preços em dólares das exportações brasileiras.
Os preços das exportações cairão 12,3% neste ano e 5% em 2000. Os preços das importações aumentarão 5% neste ano e diminuirão 3,7% em 2000. Com base nesses dados, as projeções para 1999 são de uma redução de 5,1% no valor das exportações e de 14% no valor das importações, resultando em um déficit comercial de US$ 948 milhões.
Esse valor, sublinha o Iedi, está muito distante das projeções do governo realizadas ao longo de 1999, constantes nas duas revisões do acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que foram, respectivamente, de US$ 11 bilhões e de US$ 3,7 bilhões.
Para o ano 2000, o Iedi prevê um saldo comercial de US$ 4,185 bilhões, resultante de um crescimento de 7,8% das exportações, que alcançariam US$ 52,3 bilhões. Mas, devido às incertezas com relação ao comportamento da economia internacional e dos preços das commodities, o Iedi projetou dois outros cenários – pessimista e otimista – para o comércio exterior brasileiro em 1999 e 2000.
Nesses cenários, o saldo comercial do País no ano 2000 seria de US$ 2,588 bilhões (pessimista) e de US$ 6,080 bilhões (otimista). O Iedi acredita que o cenário otimista prevalecerá devido a fatores como a recuperação da Ásia, à maior taxa de crescimento prevista para a União Européia e à manutenção do crescimento da economia dos EUA. Assim, as exportações poderiam crescer 13,3%, atingindo US$ 56,480 bilhões no ano 2000. O estudo fez ainda uma simulação da balança comercial de 1999, com a manutenção da política cambial anterior. Trabalhando com uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) de 1% e com uma variação de 4% da taxa de câmbio real, o Iedi estimou um déficit hipotético de US$ 8,4 bilhões em 1999. ‘‘Sem a desvalorização cambial, o déficit teria sido muito grande, agravando, seguramente, de forma insustentável, o desequilíbrio do balanço de pagamentos do País’’, conclui.

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