Um dos principais itens do café da manhã do brasileiro, o pão francês está sob ameaça de alta. A queda na produção do trigo nas lavouras do país fez baixar a oferta do grão e, pela lógica do mercado, o efeito é o aumento nos preços. Empresários do setor de panificação afirmam ter tentado segurar ao máximo os reajustes, mas diante das atualizações de preços praticadas pelos moinhos, o repasse ao consumidor final será inevitável e o pãozinho deverá ficar mais caro até o final deste mês.

Entre abril e junho, os moinhos elevaram o preço da farinha de trigo em cerca de 5%, mas afirmam que a alta mais recente na principal matéria-prima do setor de panificação foi insuficiente para cobrir o aumento dos custos da indústria. “Pelas nossas contas, precisa ser repassado pelo menos mais 10% até os próximos 60 dias”, calculou Paloma Venturelli, presidente do Sinditrigo-PR (Sindicato da Indústria do Trigo no Estado do Paraná) e CEO do Moinho Globo. “Com certeza, o pão vai ficar mais caro porque para garantir que tenha pão, os custos estão maiores. O abastecimento da indústria está muito mais oneroso. Infelizmente, há uma crise no setor.”

Embora Venturelli projete um prazo de dois meses para o novo aumento no preço da farinha de trigo, o presidente do Sipcep (Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria no Estado do Paraná), Vilson Felipe Borgmann, observa uma pressão no setor e avalia que os empresários não conseguirão segurar a alta até outubro e os reajustes virão ainda em agosto. Segundo ele, um grande fornecedor já avisou que a partir da semana que vem, a farinha terá um novo preço. Com mais esse reajuste, a alta da farinha acumulada desde abril deverá ficar entre 12% e 15%.

O pão francês é o carro-chefe de toda padaria brasileira. É ele que atrai o cliente e, por isso, os panificadores buscam reajustar o preço do produto em percentuais mais moderados, redistribuindo parte da alta para outros itens, como os de confeitaria, salgados e pães especiais. Atualmente, o preço médio do quilo do pão francês nas padarias paranaenses é de R$ 22. O percentual de aumento irá depender de cada fabricante, de sua estrutura de custos e de sua capacidade de ajuste nas margens de lucro, mas é certo que o impacto na mesa do café da manhã nos lares paranaenses será sentido.

“A gente está aguardando vir esse aumento (dos moinhos) para equacionar os valores, começar a fazer as nossas planilhas de custo e ver como vai repassar. A gente sempre tenta não repassar tudo, segurar um pouco a alta porque o aumento do preço do pão gera inflação. Mas o problema é que nós estamos muito apertados”, disse Borgmann.

O pão francês é um dos 13 itens que compõem a cesta básica de alimentos definida pelo governo e segundo o economista e coordenador do NuPEA (Núcleo de Pesquisas Econômicas Aplicadas), da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), Marcos Rambalducci, o custo do produto representa, em média, 7,8% do total da cesta básica, ou seja, a cada R$ 100 gastos com os alimentos que compõem essa cesta, cerca de R$ 7,80 correspondem ao pão. “Embora não seja o item de maior peso, variações em seu preço têm impacto perceptível sobre o custo da alimentação básica, especialmente por se tratar de um produto de consumo frequente”, disse o economista.

Além da alta do trigo, Borgmann explicou que o setor sente também a pressão nos preços dos outros insumos essenciais para o setor de panificação. O item de maior peso é a folha de pagamento, seguida dos custos com energia elétrica que segundo ele, subiu 20%. “Uma padaria pequena gasta em torno de R$ 10 mil mensais com energia. Isso significa R$ 2 mil a mais na conta.”

A farinha é o terceiro ou quarto item principal na composição de custos de uma panificadora, dependendo do tamanho do empreendimento. Para as empresas enquadradas no Simples Nacional, a farinha tem o terceiro maior peso na composição dos preços finais. Quem recolhe tributos pelo Lucro Presumido ou Lucro Real, tem a farinha como quarto principal insumo, abaixo dos encargos tributários. “Mas mesmo a farinha não sendo o item de maior peso dentro de uma padaria, não é um custo que pode ser desprezado”, ressaltou Borgmann.

Há 30 anos no mercado, o proprietário da Padaria Pão Bão, na vila Siam (zona leste), Arthur Gandolfo aguarda a definição do reajuste pelos moinhos para atualizar os preços dos itens vendidos no estabelecimento. “Se o moinho aumentar o preço no final deste mês, a gente teria que repassar para o consumidor já em setembro. Ainda não sabemos de quanto vai ser o repasse, mas nunca é integral. A gente absorve um pouco para não deixar de vender e a gente repassa de um modo geral, para a alta não refletir só no pãozinho.” Hoje, o quilo do pão francês na padaria de Gandolfo é vendido a R$ 17,90.

Nos últimos três anos, disse o comerciante, os custos para a manutenção do negócio têm subido e mesmo com a instalação de uma usina solar, que possibilitou uma redução significativa no consumo de energia elétrica, as altas frequentes nos preços dos insumos exigem muito jogo de cintura para garantir a sustentabilidade do negócio. “Tudo encareceu. O cliente reclama, a gente explica e para manter a clientela, a gente absorve um pouco as altas, sempre diminui uma fatia da nossa margem de lucro, cuidamos muito para não ter desperdício, concentramos a produção no que tem mais saída e isso tudo ajuda. Mas está difícil”, comentou Gandolfo.

Guerra, estoques reduzidos e entressafra elevam preço do trigo

Presidente do Sinditrigo-PR e CEO do Moinho Globo, Paloma Venturelli disse que os moinhos seguraram o reajuste ao máximo. “A gente tentou fazer um movimento de alta e percebeu que o mercado não estava absorvendo. Tivemos algumas dificuldades e essa alta não veio. Mas agora é algo que precisa se solidificar para garantir a viabilidade da empresa”, ressaltou.

Entre as dificuldades enfrentadas pelos moinhos, destacou Venturelli, estão a alta do frete marítimo, do frete nacional, com a nova tabela aprovada pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), que impacta toda a cadeia, desde a chegada do trigo até o escoamento do farelo e da farinha, e a alta dos preços das embalagens.

A coordenadora do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Ana Paula Kowalski, apontou alguns fatores que considera principais para compreender a configuração atual de preços. A produção mundial e a redução dos estoques finais da safra 2025/2026 e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que se estende por mais de quatro anos. “Os dois países são importantes produtores e exportadores mundiais de trigo, sendo que qualquer dificuldade no fluxo de comercialização afeta o comportamento do mercado, resultando em aumento dos preços.”

No entanto, disse Kowalski, o que mais contribui para o cenário de preços no Brasil é a expressiva redução de 23% na produção nacional este ano, decorrente principalmente na queda da área plantada. Trata-se da menor área em quase uma década, resultado de um total desestímulo à produção, custo elevado da cultura e margens de lucro pouco atrativas para o produtor. “Talvez o fator mais importante neste momento é a alta entressafra, que naturalmente causa o aumento dos preços, uma vez que há pouca oferta de produto daqui até a colheita.”(S.S.)

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