Bairros mantêm antigo comércio do 'fiado'
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sexta-feira, 24 de outubro de 2003
Alan Maschio<br> Reportagem Local 
As relações comerciais baseadas em confiança entre vizinhos estão ajudando a manter a saúde financeira dos mercados, mercearias, sacolões e padarias das periferias das cidades. Frente ao crescimento constante dos super e hipermercados, que, no Paraná, respondem atualmente por mais de 90% das compras feitas com alimentação, estabelecimentos comerciais de bairros apelam para o famoso ''fiado'' para manter a freguesia.
Pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Latin Panel, de São Paulo, aponta para o consumidor das classes C, D e E (com renda mensal inferior a R$ 2.400), parcela que reponde por 76% dos domicílios brasileiros, como os principais clientes do varejo tradicional. Além da relação de confiança com os proprietários dos estabelecimentos, a facilidade para as compras, explicada pela proximidade, favorece o pequeno comerciante.
No Jardim Piza, Zona Sul de Londrina, região tradicionalmente conhecida pelo forte comércio popular, as relações estáveis entre comerciantes e clientela reforçam as conclusões da pesquisa. Também enfatizam a afirmação feita recentemente pelo superintendente da Associação Paranaense de Supermercados (Apras), Walmor Rovariz, de que os pequenos e médios mercados, nas periferias, são igualmente responsáveis pelo aumento da participação dos supermercados nos gastos do consumidor com alimentação.
A Mercearia Sete Barras, de Reinaldo Sanches, próxima à Avenida Europa, é exemplo claro de comércio entre amigos. Segundo Sanches, entre 60 e 70 clientes de sua mercearia fazem, mês a mês, compras a fiado, rigorosamente cadastrados em uma caderneta. E essa carteira responde por 25% de seu faturamento. ''Não adianta mostrar documento ou comprovante de residência. Tem que ser meu conhecido'', conta Sanches, com sua mercearia funcionando há 11 anos no local.
Situação semelhante é vivida por Edson Souto, dono de um mercadinho também no Jardim Piza. Ele conta que como é vizinho da maioria de seus clientes, acaba sendo obrigado a fazer fiado. ''Fica chato a gente recusar'', explica, ressaltando que tem muito menos problemas de inadimplência com seus amigos fregueses do que com pessoas que pagam com cheque. Em algumas semanas, até seis cheques voltam sem fundos. ''No caso do fiado, o freguês fica com vergonha de atrasar e paga.''
A comodidade trazida pela proximidade do comércio com a freguesia é o fator que mais colabora com a manutenção financeira dos bairros. Na pesquisa da Latin Panel, foi constatado que apenas 40% da classe C e 20% das classes D e E têm automóvel. E é essa a justificativa de Daiane Karina para fazer suas compras em lojas assim. ''Quando falta alguma coisa em casa, corro para cá, pois é pertinho'', conta a estudante. Mas as visitas a mercadinhos de bairros não se limita à reposição da dispensa. Compras grandes também são efetuadas, como faz a atendente de restaurante Marlene Alves da Silva. ''Faço tanto compras de final de semana como para todo o mês. Aqui também é mais em conta.''


