Economistas, exportadores, investidores e analistas dos mercados de ações e cambial acompanham com atenção as oscilações do pregão do Ibovespa e as variações do dólar dos últimos dias. Após registrar um volume recorde de negociações na quarta-feira (11), atingindo os 189 mil pontos, a bolsa de valores de São Paulo encerrou com leve queda na quinta-feira (12) enquanto a moeda norte-americana, que vinha perdendo força frente ao real, voltou a subir e terminou o dia cotada a R$ 5,20. Por enquanto, a volatilidade do mercado não chegou a níveis elevados o suficiente para acender o alerta, mas alguns setores veem com preocupação esse movimento de sobe e desce. O agronegócio, um dos principais motores da economia paranaense, pode ser fortemente afetado por uma desvalorização persistente do câmbio.

Desde janeiro, o dólar recuou 5,8% no mercado interno. Essa trajetória tem impactos positivos e negativos sobre a agropecuária nacional. Com a moeda norte-americana em baixa, ocorre a redução dos custos de produção, uma vez que boa parte dos insumos utilizados pelos produtores rurais é importada. Por outro lado, o dólar mais barato reduz os ganhos do setor. "Isso comprime a margem de lucro dos exportadores, mas ao mesmo tempo pode aliviar os custos com os insumos importados. Essa queda, eu entendo que influenciada, a maior parte, pela entrada do capital estrangeiro, gera alerta sobre a rentabilidade da soja, do milho e do café. A gente tem que ficar bastante atento", avaliou o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Marcelo Janene El-Kadre. O principal impacto, apontou ele, é a redução das receitas com as exportações. Segundo El-Kadre, as margens de lucro apertadas dos produtos e os custos de produção em patamares altos têm causado a queda de receita da atividade.

Marcelo Janene El-Kadre, presidente da Sociedade Rural do Paraná
Marcelo Janene El-Kadre, presidente da Sociedade Rural do Paraná | Foto: Roberto Custodio

Técnico econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Jefrey Kleine Albers ressaltou que os impactos positivos da desvalorização do dólar nos custos dos insumos não superam as desvantagens trazidas pela baixa cambial. "O dólar baixo reduz os custos com os insumos agrícolas, mas não chega a gerar um impacto direto na mesma proporção do que um impacto no preço da comercialização. O fertilizante é o principal deles, nesse aspecto, mas a participação do custo do fertilizante dentro do custo total do produtor não tem a mesma relação. Aí, os custos internos que a gente tem em relação à mão de obra, à logística, ao diesel ainda são fortes e pesados nessa conta. A redução que o dólar proporciona no preço interno do fertilizante não chega a causar essa compensação."

Safra cheia e endividamento elevado

A queda do dólar, afirmou o técnico da Faep, não afeta diretamente apenas as exportações. As commodities são cotadas em dólar por conta do mercado mundial e existe uma tendência natural de que os produtores passem a receber menos pela sua produção. "Principalmente pelas commodities, soja e milho, em um momento agora de oferta de safra. O pessoal está começando a colher e na hora da comercialização, a queda do dólar afeta diretamente a remuneração do produtor, que estava esperando um caixa mais alto para liquidar principalmente dívidas passadas", explicou. "O nível de endividamento está muito alto por conta de perdas de safras anteriores. Então, agora a gente tem uma safra boa, com bastante volume e se o preço estivesse em um patamar alto, resolveria muito as questões financeiras."

O resultado histórico da Ibovespa nesta semana foi impulsionado pelo desempenho das ações de companhias chamadas de blue chip, termo utilizado para denominar empresas de capital aberto consideradas sólidas, como Petrobras e Vale, que têm alto valor de mercado. "Esse movimento de entrada na Bolsa de Valores brasileira segue uma tendência global de busca por oportunidades de investimentos em países emergentes, como o Brasil, uma vez que a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano, e muitas ações relativamente baratas são consideradas como oportunidades pelos investidores estrangeiros", disse o professor de economia da Faculdade Anhanguera, Elcio Cordeiro da Silva. "Nesse contexto, o forte movimento de investimentos no país, somado ao recuo do dólar no exterior, resultou na recente desvalorização da moeda americana ante o real."

Albers apontou a relação direta entre alta da Ibovespa e queda na cotação do dólar e a interferência da taxa Selic nesse movimento. "Enquanto o Banco Central determina que só em março vai começar a mexer (na taxa básica de juros), fazendo calibragens, isso vem diretamente para o agro porque não afeta só o dólar, mas o custo do capital, quando o produtor vai buscar financiamento para custear a safra", declarou o técnico econômico da Faep.

Projeções

A taxa básica de juros brasileira é uma das mais altas do mundo. Albers calcula que um percentual próximo de 10% seria o mais adequado, mas não há a expectativa de que chegue a esse índice neste ano. As projeções econômicas falam em 12,5% até o final de 2026. "A gente tem um horizonte de uma taxa cambial perto de R$ 5,50 e de uma taxa Selic pelo menos mais próxima de 10%. Vai demorar bastante. Não temos expectativa de que para este ano ocorra."

Apesar de o dólar ter descido ao menor patamar desde maio de 2024, chegando a R$ 5,18 na última segunda-feira (9), quem atua no setor de comércio exterior não vê motivos para preocupações até o momento. "As empresas mais experientes gerenciam seus pagamentos para evitar essas oscilações. Os importadores aproveitam o dólar baixo para pagar importações e os exportadores seguram os pagamentos recebidos para aguardar a alta e fechar quando estiver atrativo", explicou o especialista em comércio exterior e CEO da W.Brazil Trader, Ricardo Kono.

Embora a desvalorização da moeda norte-americana possa reduzir a lucratividade dos exportadores brasileiros, se eles tiverem fluxo de caixa adequado, conseguem deixar o valor recebido em dólar e optar por fazer o câmbio quando a moeda voltar a subir. "A tendência não está sendo de queda e sim variações pequenas e sem rumo preciso", disse Kono. "As empresas exportadoras têm ou deveriam ter uma margem de segurança ao elaborarem seus preços de venda, para suportar quedas do dólar. Somente aqueles segmentos em que as empresas brasileiras têm pouca competitividade, com margem muito baixa, é que estão sendo afetadas."

Mas se a desvalorização do dólar continuar, além da agricultura, segmentos como o de minério de ferro e de produção de proteínas serão afetados, pois giram em valores altos como commodities. Por enquanto, com o dólar variando dentro de níveis aceitáveis, o setor de comércio exterior não espera nenhuma medida do governo federal. No entanto, se a queda cambial se acentuar e houver necessidade de intervir, o governo e o Banco Central poderão utilizar algumas ferramentas para conter o avanço do real sobre o dólar, como a compra de dólares diretamente no mercado. "Não há expectativa de grandes variações no dólar nos próximos meses devido a ações no Brasil. Porém, ações do governo americano e da macroeconomia mundial, como acordos ou guerras, podem afetar drasticamente o volume cambial dos investimentos no Brasil e assim, fazer o dólar subir. Já no segundo semestre, há uma tendência de alta da taxa do dólar, devido às eleições e às consequentes incertezas do mercado", avaliou Kono.

Benefícios potenciais para empresas e consumidores

Silva lembrou que caso permaneça esse cenário de valorização do real ante o dólar, muitas empresas brasileiras poderão ser beneficiadas, uma vez que a aquisição de máquinas e equipamentos importados será barateada, impactando diretamente a produtividade e o custo de produção. "Contudo, é importante destacar que a taxa Selic em 15% ao ano ainda é um obstáculo para as empresas, pois encarece o custo dos financiamentos."

Para os consumidores, as consequências também podem ser benéficas, afirmou o professor de economia. "Muitos alimentos e produtos eletrônicos são cotados em dólar. Com o fortalecimento do real, a tendência é de redução dos preços desses produtos, contribuindo para o controle da inflação."

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