Paulo WolfgangMorada dos barõesCasarão na Higienópolis: artéria principal de Londrina sempre marcou pela ostentaçãoO Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) vai abrir concurso, pesquisa e debate público sobre as necessidades de mudanças na Avenida Higienópolis. A área vem dando sinais de cansaço e, como mostra a história, não era para estar assim.
Artéria principal da cidade, a Higienópolis sempre marcou pela ostentação. Hoje ainda falam que um dos seus maiores problemas é o preço do metro quadrado; muito caro. Agora ela entra na pauta de prioridades da prefeitura, principalmente em relação à falta de estacionamento para os consumidores. Enquanto a população de Londrina cresce 1,6% ao ano, o número de veículos nas ruas sobe 6%. Já são 148 mil veículos e 26 mil motos transitando na cidade.
O Ippul não tem nenhum projeto no papel para a Higienópolis. O que existe é a intenção de anunciar o mais breve possível a abertura de concursos para selecionar os melhores projetos urbanísticos para a Higienópolis e os fundos de vale. O presidente do Ippul, Mário Stamm Júnior, também quer ouvir a população, fazendo pesquisas.
A Higienópolis sempre esteve em discussão, desde que o vereador Naym Libos e os engenheiros Guidimar Guimarães e Júlio Ribeiro lançaram na cidade, em 1976, a idéia de fazer da avenida um ponto comercial de primeira grandeza. Compraram briga na hora com os moradores da área, os barões do café, do boi.
Museu Histórico de LondrinaDesenhada pelos inglesesA avenida, quando ainda não se pensava que seria um disputado ponto comercial: a única da cidade demarcada no projeto de colonização da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná
A avenida é a única da cidade demarcada no projeto de colonização da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná. Os poderosos não queriam descaracterizar esse fato histórico. Todos sabiam, porém, que a resistência era pessoal. Por que aceitar o comércio em área residencial tão nobre? - questionavam.
José Richa, que comandava a prefeitura (1973 a 76), depois de tanta conversa pediu gaveta para o projeto. Foi o que aconteceu. Um tempo depois, os próprios barões se convenceram que aquilo não tinha mais jeito. As clínicas estavam chegando, os escritórios; mais cedo ou mais tarde a Higienópolis seria comercial. Foi aí que eles passaram a aceitar a idéia.
O projeto virou lei em 80, depois de quase dois anos de discussão. O prefeito já era Antonio Belinati (1977 a 82). E a lei chegava a proibir a construção de muros para que a Higienópolis fosse um jardim só. Coisa que ninguém respeitou. Nem cobrou.
Dois anos depois da abertura comercial da Higienópolis foi fechado o maior negócio imobiliário da cidade - na Higienópolis: Cr$ 135 milhões, a fortuna da época. Em duas datas que custaram dois contos de réis em 1948, na esquina da Pio XII, o Banco Safra levantou a sua sede. O casal que morava ali, numa casa construída em 1950, queria se livrar do trânsito e dos ladrões. A mais nobre área residencial de Londrina foi perdendo assim, aos poucos, o privilégio de servir a ‘‘poucos e bons’’.
A primeira construção comercial - com o primeiro alvará - foi a Imobiliária Franco. Depois surgiram o Center Irene Isabel, o edifício Londres, o Comercial Higienópolis, o Continental. O metro quadrado era disputadíssimo, caro. Até comparavam a Higienópolis com a Avenida Paulista (SP), mais pela sofisticação das obras do que pelo comércio que estava se instalando.
No período de Wilson Moreira (83 a 87) a avenida foi recebendo um ou outro retoque da prefeitura, como estacionamento na diagonal (que não deu certo) para acabar com as filas duplas, barreiras para que ninguém mais colocasse o carro no canteiro central e sinalização para que o motorista respeitasse a entrada das residências. A essas alturas, a Higienópolis era um ponto de encontro da moçada e sempre dava problemas.
No início do segundo mandato de Belinati, em 89, a avenida estava duplicada, da Rua Sergipe à Madre Leônia Milito. Em 91 surgiu um projeto de revitalização pedindo a construção de calçadas largas, postes decorativos, nova sinalização e eliminação dos canteiros. Queriam até rebatizar a avenida de Boulevard Higienópolis. O autor do projeto era o engenheiro Júlio Ribeiro, que morreu em 94 num acidente de carro.
Preocupados com a abertura em 90 do Shopping Catuaí, na Rodovia Celso Garcia Cid (cuja via principal de acesso é a Higienópolis), os comerciantes da área não queriam mais semáforos nem trânsito de ônibus na avenida. Queriam estacionamento no lugar dos canteiros. Queriam público, consumidores. O projeto não vingou.
Em 91 veio uma lei permitindo a abertura do comércio na Higienópolis até as 22 horas, da Rua Sergipe à Avenida Aminthas de Barros. Foi o maior barulho. ‘‘Não existe movimento que justifique’’, dizia um comerciante para a Folha de Londrina. ‘‘A Higienópolis deve permanecer aberta, sim’’, rebatia outro. ‘‘Se não for o mesmo horário na cidade inteira; sou contra’’, falava o terceiro. O sindicato dos empregados no comércio também deixou o seu recado: ‘‘Infelizmente, a mentalidade do empresariado brasileiro ainda é a de sugar ao máximo os empregados.’’
Luiz Eduardo Cheida, prefeito de 93 a 96, anunciou a construção de uma passagem de nível no cruzamento Higienópolis-JK (esperando verbas do Estado) e só conseguiu fazer algumas mudanças na rotatória. Instalação de semáforo eletrônico e faixas de sinalização vertical, por exemplo. O cruzamento ainda é um problema. E a Higienópolis entra novamente em debate.

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