Auxílio contra tarifaço proposto por Ratinho divide opiniões
Medidas devem ser anunciadas nos próximos dias e alguns setores são considerados prioritários
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quarta-feira, 30 de julho de 2025
Medidas devem ser anunciadas nos próximos dias e alguns setores são considerados prioritários

O governador do Paraná, Ratinho Junior, deverá anunciar, nos próximos dias, um pacote de auxílio para reduzir os impactos do tarifaço de 50% anunciado pelos Estados Unidos aos produtos exportados pelo Brasil. Mas a medida divide opiniões entre os setores afetados pela taxação. Enquanto alguns afirmam que mais eficaz do que a ajuda pontual planejada pelo governo do Estado é a negociação da tarifa pela diplomacia brasileira, outros consideram a ajuda bem-vinda em um momento de grandes incertezas.
“Hoje, a melhor opção seria a negociação da tarifa. Deixar nos 10% que já existiam. Seria o sonho da indústria”, avaliou Silvio Alves, proprietário do grupo cafeeiro Dois Irmãos, em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro).
Após uma negociação de dois anos com um importador norte-americano, Alves conseguiu fechar um contrato de exportação de café torrado e moído. Pelo acordo, pelo período de um ano ele enviaria, todos os meses, quatro contêineres do produto já embalado e pronto para ser vendido nos supermercados norte-americanos.
Com o anúncio da taxação, os quatro contêineres previstos para serem embarcados aos EUA em julho não foram despachados porque chegariam após o dia 1 de agosto, quando passará a valer a nova tarifa. “Mensurar o prejuízo é difícil. Há toda uma estratégia que nós tínhamos montado. Estamos perdidos. Não existe 50% de margem. A gente briga por 2%, 5%, 10%. Uma tarifa de 50% quebra a gente. É uma decepção muito grande”, disse Alves.
A exportação do café já industrializado ainda é incipiente no Brasil. Do total do produto vendido ao mercado estrangeiro, 90% são café verde, 9% correspondem às vendas de café solúvel e apenas 1% é a parcela do grão já torrado e moído.
“O importador também está desnorteado. Ele fez todo um investimento para lançar uma marca e agora a produção está parada”, comentou o diretor do Grupo Dois Irmãos, Julio Correa.
Segundo ele, a expectativa do setor é a negociação da tarifa pelo governo brasileiro. Um auxílio emergencial, avaliou Correa, seria “uma faca de dois gumes”. “Não queremos contar com isso porque a gente sabe que a conta vem depois. Esses recursos vão sair de onde? O governo vai despejar dinheiro em algumas empresas, quer priorizar produtos mais urgentes, quer a liberação rápida de alguns produtos, mas a gente quer uma solução para continuar fazendo negócio.”
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Setor madeireiro
No setor madeireiro, um dos mais atingidos pela taxação e cuja produção é quase integralmente destinada ao mercado externo, o anúncio do auxílio é visto como uma prova de “maturidade” do governo estadual no enfrentamento de períodos críticos, como o atual.
“O setor madeireiro é o mais exposto na balança comercial do Paraná para com os Estados Unidos e os créditos emergenciais, as novas linhas de financiamento, a prorrogação do recolhimento de encargos e, em especial, a liberação de créditos em ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), tanto os já habilitados quanto aqueles em conta gráfica, monetizando as empresas neste momento tão importante, são ajudas fundamentais”, declarou o superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), Paulo Pupo.
Empresários do setor da aquicultura também comemoraram a decisão do governo estadual. Presidente da Associação Peixe Paraná, Valério Angelozi vê na iniciativa de Ratinho Junior uma demonstração de sensibilidade com os produtores rurais paranaenses. "Ficamos felizes em saber do auxílio. No caso do cultivo da tilápia e da aquicultura em geral, a gente espera que consiga algum benefício. Hoje, o principal benefício que o setor vem buscando é uma isonomia tributária em cima do ICMS."
Angelozi ressaltou que o Paraná vem tendo perdas de competitividade por conta da tarifa do ICMS, considerada elevada. "Outros estados não têm o ICMS ou têm esse imposto quase zerado e estados compradores, como da Região Nordeste, Rio de Janeiro e Santa Catarina, que tradicionalmente compravam peixe do Paraná, preferem comprar de estados com tributação mais vantajosa."
"É nosso dever ajudar a manter a economia do Paraná forte nesse momento de incertezas. Estamos trabalhando ao longo de alguns dias nesse pacote e vamos continuar dialogando com o setor produtivo para avaliar os próximos passos", afirmou Ratinho Junior.
Beneficiados
A Secretaria de Estado da Fazenda, que trabalha na elaboração das medidas de ajuda aos exportadores paranaenses, não divulgou uma lista dos setores que devem ser beneficiados, mas apontou os considerados principais na agenda de exportações do Paraná. Madeira e derivados, máquinas, combustíveis minerais, plástico, alumínio, açúcar, café, adubos, borracha, produtos farmacêuticos, móveis, peixes e óleos vegetais estão entre eles.
As exportações anuais do Paraná aos EUA somam, em média, US$ 1,5 bilhão. Em 2025, de janeiro a junho, as vendas ao mercado norte-americano totalizaram US$ 735 milhões.
O secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, afirmou que as políticas de auxílio serão implementadas com o intuito de preservar as empresas. “O governo do Paraná é sensível a essas demandas e quer colaborar para o enfrentamento dessa dificuldade, principalmente no esforço de manter os empregos, as cadeias produtivas e ajudar no enfrentamento dessa dificuldade que deve começar de maneira bem concreta em agosto”, disse ele, em matéria publicada pela Agência Estadual de Notícias.
O detalhamento do pacote de ajuda ainda não foi feito e o mais provável é que o governador aguarde o dia 1 de agosto para divulgar as medidas. Mas a Fazenda já antecipou que haverá oferta de crédito, flexibilização de prazos para investimentos já acordados e utilização de créditos de ICMS homologados no Siscred (Sistema de Controle da Transferência e Utilização de Créditos Acumulados) para monetizar ou usá-los como garantia na tomada de recursos.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


