O aumento no consumo da cesta básica, vestuário e produtos de higiene estaria empurrando os preços para cima, provocando o que os economistas chamam de ''bolha inflacionária''. A preocupação é que comércio e serviços comecem a majorar preços, diante da incapacidade da indústria e da produção agrícola em repor os estoques nas lojas e no varejo em geral.
Diante desse quadro, os riscos são conhecidos e o antídoto para enfrentar uma disparada nos preços seria o aumento da taxa de juros pelo Banco Central brasileiro, considerada uma das maiores do mundo. A medida só não tomou pulso, na avaliação dos economistas, porque isto poderia custar as eleições municipais deste ano.
O professor e economista Flavio Oliveira dos Santos, de Londrina, compartilha da idéia de que o governo federal resiste em aumentar os juros, porque isto poderia custar as eleições municipais este ano. ''A eleição municipal é uma prévia do que vai acontecer lá na frente'', diz Oliveira, referindo-se à eleição presidencial daqui a dois anos.
Oliveira não acredita que, por enquanto, o governo vá optar em aumentar a taxa de juros, atualmente, na casa de 11,25%. ''Pode custar a eleição'', calcula. Ele lembra que a taxa de juros sobre cartões de crédito, representa cerca de 150% ao ano, 12% ao mês''.
O aumento do juros representaria queda no consumo, desemprego e traria pessimismo à indústria e ao comércio. A crise imobiliária americana, segundo ele, é outro agravante. ''Isso (a crise americana) vai acabar respigando no Brasil'', diz. ''As consequências podem ser preocupantes para as pretensões eleitorais do governo Lula''.
Outro aspecto, salienta o economista, são os juros da cesta básica nos últimos doze meses acumulado em 17,38%. Segundo Oliveira, os juros demonstram que a cesta básica esta bem acima dos cálculos oficiais de inflação. Ele explica que os meses de fevereiro e março deste ano registraram uma leve queda na cesta básica. ''Esta queda é devido às promoções que o comércio em geral faz no início do ano e não de queda real de inflação''.
Para outro economista de Londrina, Laércio Rodrigues de Oliveira, a ''bolha inflacionária'' se deve a incapacidade do governo atender a demanda, produzindo mais e não tendo como escoar rapidamente os produtos para o mercado consumidor. Para ele, o programa social Bolsa Família, por exemplo, possibilitou a entrada de consumidores até então excluídos do processo de consumo. A liquidez bancária também contribuiu para o crescimento da bolha, em razão dos juros dos empréstimos bancários terem caído de 26%, no início do governo Lula, para 11,25% (taxa Selic).
O crédito fácil também impulsinou os preços dos produtos para cima. ''Hoje você pode comprar um carro em cem prestações'', demonstra. O cartão de crédito também tornou-se um grande atrativo nos mercados. ''Com a bolha inflacionária, dificilmente a indústria consegue atender a demanda no curto prazo'', explica o economista.
Rodrigues descreve o momento como sendo de expectativa. ''Existe uma sensação de que a inflação pode voltar, mas ainda o aumento de preço não é geral'', reflete, ao explicar que para ser inflação, é necessário que todos os preços aumentem, indistintamente.

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