Aumento de dólares pode prejudicar balança
Brasília - A classificação do País como economia de investimento seguro não trouxe só notícias boas. O anúncio do grau de investimento na mesma semana em que foram divulgados os números da balança comercial de abril e do rombo nas contas externas, que tende a ficar maior e vem se deteriorando aceleradamente, jogou luz sobre três desafios que o Brasil tem agora pela frente: uma balança comercial com desempenho fraco; vai entrar mais dinheiro, mas também vai sair muito dinheiro em remessas de lucros das empresas; se houver uma forte retração da economia mundial, pode secar a fonte de investimentos fartos para tapar o buraco das contas externas.
Em síntese, como diz Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, ''ter como financiar o déficit (das contas externas) não muda o fato de que o déficit existe''. ''O sujeito decide trabalhar menos, passa a receber metade, mas, de repente (com o grau de investimento), ganhou um cartão de crédito com saldo ilimitado.''
Na última segunda-feira, o Banco Central (BC) divulgou o resultado das transações correntes do Brasil, que englobam entradas e saídas de dólares pelas vias do comercial, de serviços, financeira e outras transferências. Os números, referentes a março, surpreenderam os especialistas e o próprio governo. O esperado era um saldo negativo da ordem de US$ 3 bilhões. Na realidade, foram US$ 4,429 bilhões, um recorde para os meses de março nos registros do BC, que começaram em 1947.
A deterioração, cuja intensidade surpreendeu os analistas, se deve principalmente ao fraco desempenho da balança comercial, que é um componente das transações correntes. Segundo cálculos do Iedi, 53,5% da piora do resultado do primeiro trimestre, comparado a igual período em 2007, se deve ao comércio.
Outros 42,7% da deterioração da conta se devem ao crescimento das remessas de dinheiro ao exterior na forma de lucros e dividendos. As empresas estrangeiras que operam no Brasil estão registrando grandes lucros aqui e amargando prejuízos lá fora, por causa da crise internacional. Por isso, as filiais brasileiras intensificaram o envio de recursos. Essa manobra é favorecida ainda pelo fato de o dólar estar barato, ou seja, reais lucrados aqui valem mais dólares.
Dólar encolhe
O grau de investimento pode agravar o desempenho desses dois componentes. É esperado um aumento no volume de capital estrangeiro aplicado aqui. Essa avalanche de dólares vai jogar a cotação da moeda estrangeira para baixo, piorando o resultado da balança comercial. Além disso, os novos investimentos vão gerar mais lucros e dividendos a serem remetidos ao exterior. Por isso, o déficit nas transações correntes tende a bater novos recordes.
Na avaliação do BC, o ''rombo'' nas contas externas registrado até agora não preocupa porque ele é compensado pelo forte ingresso de investimentos estrangeiros diretos (voltados para a produção).
Do ponto de vista técnico, considera-se que o déficit foi financiado. O ''rombo'' nas transações correntes foi compensado com o ingresso de dólares por outras vias. Nesse sentido, o grau de investimento é uma boa notícia, pois vai aumentar o fluxo de investimentos para o País. A dúvida é se esse arranjo se sustenta.





