Genebra - Nos últimos meses, multinacionais como Coca-Cola, Nissan ou a Nestlé criaram novas linhas de produtos. Eles não têm nenhum sabor novo nem inovação tecnológica. Mas foram elaborados especialmente para atender a uma nova camada da sociedade que explode no mundo: a classe média. Estimativas do Banco Mundial, da Goldman Sachs e de consultorias apontam que o mundo vive a maior expansão da classe média, superando até mesmo a revolução no século 19, quando o fenômeno transformou Europa e Estados Unidos.
Se para as multinacionais essa parcela da população representa um novo mercado, para ambientalistas, a explosão pode representar um risco real para a sustentabilidade se o padrão de consumo americano for reproduzido pelo planeta. Para a agência de Saúde da ONU, o risco de que a obesidade se transforme em praga nos países emergentes também é uma ameaça.
Segundo o Banco Mundial, a classe média no mundo passará de 430 milhões de pessoas em 2000 para mais de 1,1 bilhão em 2030 - 93% estarão nos países emergentes. Para o banco, uma pessoa de classe média ganha entre US$ 10 e US$ 20 por dia.
Para entidades de pesquisa essa população seria maior. ''Nos últimos dez anos, vimos uma expansão sem precedentes da classe média'', afirma da Goldman Sachs em relatório. ''Mas o ritmo de crescimento será bem mais rápido nos próximos anos.'' Na avaliação da Goldman, até 2030, 2 bilhões de pessoas farão parte da classe média - o correspondente a 30% da população mundial. O banco de investimento considera integrante da classe média quem ganha entre US$ 6 mil e US$ 30 mil por ano.
Uma parte enorme da população continuará na extrema pobreza. Mas a expansão da classe média terá impactos ambientais, econômicos, sociais e políticos. Hoje, 70 milhões de pessoas saem da pobreza e entram na classe média a cada ano. Até 2030, serão 90 milhões por ano.
Os principais responsáveis por isso serão Brasil, Rússia, Índia e China, que estarão entre as seis maiores economias do mundo até 2050. Mas Indonésia, México, África do Sul e Turquia também terão alta. Como consequência, a Goldman estima que o número de pessoas vivendo com menos de US$ 2 por dia cairá para 2,5% da população mundial em 2020 ante 30% nos anos 70.
Para a McKinsey Global Institute, a classe média indiana passará de 50 milhões de pessoas em 1990 para 583 milhões em 2020. Na China, a classe média representará 76% da população até 2025. Hoje, ela é 46% do país.
Para as consultorias, o impacto econômico dessas novas camadas será significativo. Nos últimos meses, parte da alta nos preços das commodities ocorreu diante do maior consumo de carne e alimentos por chineses e indianos. Minerais, madeira e petróleo nunca foram tão consumidos. Segundo a agência de Alimentação e Agricultura da ONU, a safra mundial será recorde em 2008.
Para a Nestlé, os emergentes garantem lucros, enquanto Estados Unidos e Europa dão sinais de debilidade. No primeiro semestre, o crescimento médio da empresa foi de 8,9% ante 18% nos países emergentes. ''Vemos esses mercados como oportunidades para compensar a desaceleração nas economias ricas'', disse o diretor Financeiro da Nestlé, Jim Singh.

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