Aumentam as desigualdades na A.L.
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de março de 1999
José Antonio Puertas 
Depois de ter saído da crise da dívida externa nos anos 80, a América Latina entrou, sem saber, numa década de agravamento da desigualdade, que historicamente sempre foi um dos males típicos da região, enfatiza um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgado no final da semana passada, em Paris.
As opções de abertura e modernização das economias, a chamada globalização, que estimularam o crescimento econômico e ajudaram a superar o problema do endividamento, empurraram, ao mesmo tempo, estes países para um curso que acentua a desigualdade social, explicou Ricardo Hausmann, economista chefe do BID, ao discutir o informe.
Salário x salárioO documento serviu de base para um dos seminários organizados paralelamente à 40ª Assembléia Anual do BID, que será inaugurada hoje, na capital francesa.
Hausmann indicou que a América Latina é a região do mundo onde é maior a desigualdade entre os segmentos mais ricos e mais pobres da população, e esclareceu que não se trata da diferença entre os pobres e as poucas famílias donas de capital, e sim entre assalariados melhor e pior remunerados.
Utilizando-se da imagem de uma escada de dez degraus, na América Latina os 10% dos trabalhadores mais bem pagos - o degrau superior - ganham em média 160% mais do que o nono degrau, enquanto, por exemplo, nos Estados Unidos a distância é de apenas 60%.
O principal fator de diferença entre o primeiro e o nono degraus, segundo o estudo, são sete anos de escolaridade, com uma média de 12 anos de estudo para os que estão no topo e cinco anos para os menos bem pagos.
A escassez de mão-de-obra qualificada fez subir a remuneração de quem tem a sorte de estar nesse segmento, e a forma de reduzir a diferença é aumentando o número de quem chega a esse nível. Os pesquisadores do BID identificaram uma janela de oportunidade que poderia levar a essa realidade, implementando-se políticas adequadas.
Questão de estudoTrata-se de uma oportunidade demográfica transitória, graças à diminuição da taxa de fertilidade, o que fará que a proporção de pessoas com idade de trabalhar aumente mais rapidamente do que o número de crianças. O mesmo fenômeno fará aumentar o número de mulheres na força de trabalho.
A consequência disto é que haverá menos estudantes por trabalhador, facilitando o financiamento de um sistema educacional melhor. Esta situação mudará em cerca de vinte anos, com o envelhecimento da população e o aumento da proporção de aposentados.
As políticas recomendadas pelo BID para reduzir a desigualdade - que, ao mesmo tempo, fomentariam um aumento da produtividade e aceleração da taxa de crescimento - incluem um sistema de impostos mais simples e mais plano, subsídios concentrados e reavaliação do gasto educativo para privilegiar a educação primária e secundária.
Atualmente, a maioria dos estudantes pobres deixam a escola imediatamente depois de completar o primário, enquanto os ricos continuam até a Universidade, o que perpetua a desigualdade. O BID descobriu que os sistemas de impostos chamados progressivos, que castigam mais a quem mais ganha, resultam, na maioria dos casos, em uma maior evasão e menor arrecadação geral.
É preciso aumentar a arrecadação para ter mais recursos a distribuir, e a maneira de conseguir isso é com taxações tributárias mais planas, enfatizou o economista chefe do BID.


