O rumo que a Argentina dará à economia voltou a preocupar o governo brasileiro nos últimos dias. A tranquilidade das autoridades de Brasília pelas notícias de que os agentes financeiros acentuaram a diferenciação das economias dos dois sócios do Mercosul foi sucedida pela ansiedade em relação aos próximos movimentos da equipe econômica de Buenos Aires.

Os focos da apreensão brasileira estão na possibilidade de dolarização ou de desvalorização da moeda local, no declínio mais acentuado do comércio entre os dois países e no impacto negativo da crise no destino das negociações comerciais postas em marcha pelo Mercosul.

''A diferenciação dos cenários macroeconômicos brasileiro e argentino não quer dizer que tudo esteja bem. A situação na Argentina continua afetando o comércio bilateral, os investimentos na região e o próprio Mercosul'', afirmou à reportagem da AE uma fonte do Palácio do Planalto. Conforme a mesma fonte, o governo brasileiro avalia que a Argentina está em uma ''crise sem saída visível em curto ou em médio prazo''.

Do ponto de vista das autoridades brasileiras, a dolarização plena da economia do país vizinho seria o pior caminho. Primeiro, porque a Argentina abdicaria de seu poder de conduzir sua política monetária.

Segundo, porque não resolveria o problema da baixa competitividade do produto argentino do exterior - que é dada principalmente pela paridade entre o peso e o dólar. Terceiro, porque comprometeria de vez o projeto do Mercosul de convergência macroeconômica. A desvalorização do peso argentino, por sua vez, tenderia a trazer consequências dramáticas para a população, na mesma avaliação. Entre elas, o empobrecimento geral do país e a possibilidade de retorno da inflação com força.

O embaixador José Botafogo Gonçalves resumiu a política que o Brasil deverá manter nas suas relações com os seus sócios do Mercosul, sobretudo a Argentina: a da ''paciência estratégica''. Botafogo foi indicado por FHC para assumir a embaixada do Brasil em Buenos Aires. Já conta com o aval do governo argentino, mas seu nome ainda terá de ser confirmado pelo plenário do Senado nesta semana.


''Esta política, que eu chamaria de 'paciência estratégica', não deve ser confundida com uma política de timidez, de tolerância injustificada ou mesmo de displicência no trato dos interesses dos exportadores brasileiros'', esclareceu ele.

Diante dos quatro anos de recessão na Argentina e da impossibilidade de alteração desse cenário a curto prazo, Botafogo deixou claro aos senadores que tentará trabalhar em Buenos Aires nas áreas menos afetadas pela conjuntura, como as de infra-estrutura, de ciência e tecnologia, de meio ambiente e trabalhista. Ainda pretende levar adiante a agenda de integração das cadeias produtivas de ambos os países - uma fórmula que, a seu ver, garantiam ganhos de produtividade à indústria argentina.

Na avaliação do governo brasileiro, a situação ''intranquila'' na Argentina abre ainda uma interrogação sobre o andamento das negociações comerciais que envolvem o Mercosul justamente em um período em que deveriam ganhar impulso. Em 2002, as discussões sobre o livre comércio com a União Européia e a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) se concentrarão no capítulo acesso a mercados - tema considerado prioritário na estratégia de ambos os países de ampliarem suas exportações.

No comércio exterior, o governo prevê a redução cada vez mais acentuada das trocas de produtos entre os dois países nos próximos meses. O sinal dessa retração foi a queda de 41,2% nas exportações brasileiras destinadas à Argentina em novembro, em comparação com o mesmo mês de 2000. As importações de bens argentinos, por sua vez, caiu 21,7%. De acordo com a mesma fonte, esse quadro decorre da recessão e da redução da liquidez no mercado argentino. Mas também reflete o temor dos empresários brasileiros em relação à solvência dos importadores do país vizinho. (Veja mais na página 3).

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