A diminuição da renda dos consumidores brasileiros reflete também nos índices de inadimplência registrados pelos supermercados. De acordo com levantamento divulgado esta semana pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) com 50 empresas que representam 50% do movimento do setor, do final de 2002 para cá o calote cresceu cerca de 50%.
O volume de recursos não recebidos de cheques pré-datados significa 3,2% do faturamento total desta modalidade de pagamento, ante 2% registrado no ano passado. No caso dos cheques à vista, a taxa passou de cerca de 1% para 1,4%.
Para a entidade, os números poderiam ser ainda maiores se não fosse a expansão dos meios eletrônicos de pagamento, como cartões de crédito e débito. Em 1997, as compras pagas com cartões de crédito representavam 5% do faturamento e hoje ficam com 29,6%. Os cartões de débito respondem por 9,5%. Já os cheques, que detinham 30% do faturamento, hoje estão com praticamente a metade: 15,9%. Os cartões abocanharam espaço até do dinheiro, que antes era utilizado em 50% das compras e hoje fica com 33,7%.
Gerentes de supermercados de Londrina confirmam o cenário enfrentado pelo setor no resto do País. Ademir Cirino, gerente do Fatão na cidade, afirmou que a inadimplência cresceu porque as pessoas não têm dinheiro para pagar as compras. Para tentar se proteger do problema, a empresa só aceita cheques pré-datados de clientes cadastrados.
''Depois que adotamos o cadastro, o índice de inadimplência diminuiu de 20% a 30%'', revelou. Com a investigação, ele acredita ser possível eliminar os clientes mal intencionados que usam o cheque para dar calote. Além disso, como telefone e endereço são checados, fica mais fácil cobrar. A loja também ligou todos os caixas ao sistema do Serasa para poder consultar, no momento da compra, se há pendências sobre a conta do cliente.
Os integrantes da Associação Londrinense de Empresas Supermercadistas (Ales), que reúne 44 supermercados, também adotam o cadastro de clientes para se protegerem. Outra medida é o cartão de crédito específico para compras na rede, administrado pela Fininvest, que garante a dívida do cliente mas cobra taxa de adminstração de aproximadamente 3%.
Carlos Augusto Faria, proprietário do Vila Real em Arapongas e vice-tesoureiro da Ales, comentou que as pessoas estão sem crédito até mesmo para conseguir aprovação do cartão. ''De cada cem consultas, no máximo dez são aprovadas'', revelou. ''Os bancos ganham dinheiro como nunca enquanto a economia está parada e o povo sofre, sem dinheiro até para comprar alimentos'', criticou.
Sérgio Obara, sócio-gerente do supermercado Musamar e também associado da Ales, afirmou que o cheque pré-datado ''está fadado a desaparecer no Brasil''. Segundo ele, os bancos distribuem os talões à vontade mas não oferecem qualquer garantia sobre o recebimento do dinheiro. Por isso, em sua loja ele instituiu um cadastro para vendas a prazo que demora alguns dias para ser liberado.

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