Audiência vira palanque contra mudança de horário
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terça-feira, 09 de agosto de 2011
Nelson Bortolin <br> Reportagem local 
Interrompidas por sonoras vaias que vinham das galerias, somente duas pessoas tiveram coragem de se manifestar favoráveis ao projeto de lei 172/2010, durante audiência pública realizada na segunda-feira à noite, na Câmara Municipal. O projeto, que estabelece o novo Código de Postura municipal, trata do horário de funcionamento dos estabelecimentos privados e públicos da cidade. Entre as mudanças previstas, estão a abertura do comércio de calçada de segunda-feira a sábado das 8 às 20 horas, e dos supermercados e shoppings centers, 24 horas por dia.
Munidos de faixas com inscrições como ''Londrina precisa de indústria e não de mudança no horário'' e ''A ganância está destruindo a família'', os empregados no comércio, articulados pelo sindicato da categoria (Sindicolon), lotaram as duas galerias do Legislativo. A presença ruidosa desencorajou os discursos de quem foi à Câmara para apoiar o projeto.
Já os contrários às alterações foram aplaudidos com empolgação, como o presidente do sindicato dos trabalhadores, José Lima do Nascimento. Ele defendeu a ideia de que o comércio já tem horário flexível na cidade. ''Temos uma convenção coletiva assinada com o Sincoval (sindicato patronal) permitindo a flexibilização, bastando para isso as empresas interessadas apresentarem suas propostas'', afirmou. Segundo ele, o sindicato se encarrega de discutir e submeter a proposta à votação dos empregados da empresa.
Lima ressaltou que nem todos os empresários abrem suas lojas à tarde nos dois primeiros sábados do mês, o que demonstraria desinteresse dos lojistas na ampliação do horário. ''A abertura do comércio todos os sábados à tarde prejudica a relação familiar, os valores culturais e religiosos'', discursou.
O cordão contra o projeto 172 envolveu dois comerciantes da cidade. Dono dos Supermercados Viscardi, Ademar Vedoato foi bastante aplaudido ao dizer que os empresários do setor são contra a mudança. ''Estamos satisfeitos com o horário até as 22 horas'', justificou.
Segundo ele, os empreendimentos do setor sofrem com a rotatividade de trabalhadores. ''Funcionário de supermercado, quando recebe uma proposta para ganhar um pouquinho menos, ele sai (do emprego)'', disse. Conforme sustenta o empresário, o trabalhador prefere ganhar menos, mas não trabalhar à noite e nos finais de semana. Ele também apelou para a religiosidade: ''Tenham respeito com os cristãos, senhores vereadores.''
Padres e pastores marcaram presença na Câmara. ''Não estou me representando, mas sim a Igreja Católica de Londrina'', disse o padre Jaime Alonso. ''Desde já, manifesto a postura da igreja completamente contrária ao artigo 17 do projeto'', complementou ele, em referência à parte do texto específica sobre o comércio varejista de calçada. ''Dignidade não se negocia: ou se tem ou não se tem'', disse o padre para a euforia das galerias.
Ele apelou para o suposto dano que o projeto causaria ao convívio familiar dos comerciários e aos jovens que estudam à noite. E minimizou o efeito da medida para o desenvolvimento da cidade. ''Se trabalho levado desse jeito desse dinheiro, jumentos teriam talão de cheques e conta no banco.'' Apresentando-se como representante de um ''pequeno grupo de cristãos que se reúnem uma vez por mês'', Carlos Klein afirmou que o trabalho deve ser ''uma bênção e não um fator para alienar as pessoas''.
Para Marlene Ferreira de Souza, que se identificou como ''pequena empresária da Rua Pio XII'', o projeto 172 é uma ''cultura de morte''. ''Tenho 65 anos, trabalhei no comércio a vida inteira. É ilusória essa história de abrir até as 20 horas. É para separar a família'', disse. Segundo ela, falta segurança pública para o comércio central durante o dia. À noite, em sua opinião, seria pior ainda.
Nos próximos dez dias, a Câmara continuará recebendo propostas relacionadas ao projeto que ainda não tem data para ir à votação.


