Atraso em obra pode levar Sul ao racionamento
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quarta-feira, 26 de setembro de 2001
Agência Estado<br> De Porto Alegre 
O atraso na ampliação da estação de Garabi (RS), que converteria mais 1,1 mil megawatt (MW) de energia elétrica da Argentina para o Brasil a partir deste verão, poderá provocar problemas de abastecimento no Sul do País e obrigar a região a entrar no racionamento nacional. A segunda linha de interligação entre os dois países deveria entrar em operação em dezembro, mas ontem a empresa responsável pelo projeto anunciou um adiamento de três meses no cronograma, o que significa menos 550 MW de energia durante os meses de pico no consumo (ou 15% da demanda gaúcha). De acordo com o presidente da Companhia de Interconexão Energética (Cien), Juan Antonio Madrigal, o atraso se deve a dificuldades administrativas que causaram a retenção de equipamentos importados destinados à conversora de energia.
Os equipamentos de alta tecnologia importados da Europa, no valor de US$ 140 milhões, estavam retidos desde 31 de março na alfândega do Rio de Janeiro devido a interpretações divergentes do regime tributário especial que eles receberam. Nos últimos meses, segundo Madrigal, a Cien (subsidiária do grupo Endesa) vinha recorrendo administrativamente, sem sucesso, para tentar liberar o material, e no último dia 12 de setembro decidiu ingressar com uma ação na Justiça contra o Ministério do Desenvolvimento. A medida foi autorizada no dia 14, mas como a saída dos equipamentos estava lenta, apenas na terça-feira a Justiça liberou sua liberação com urgência.
Cerca de 400 carretas começaram a transportar o material do Rio de Janeiro para Rio Grande e São Borja, na fronteira gaúcha com a Argentina. ''Se não houvesse problemas, estaríamos fazendo os testes do sistema atualmente'', disse Madrigal. A primeira linha de interconexão entre Brasil e Argentina, também com capacidade para 1,1 mil MW, entrou em operação comercial em 21 de junho de 2000. A segunda deveria começar a funcionar em duas fases: a primeira disponibilizaria 550 MW a partir de dezembro e, a segunda, outros 550 MW a partir de maio de 2002.
As obras da linha de transmissão estão quase concluídas, mas a instalação da conversora dependia do material importado. Sem a conversora, que transforma a frequência de 50 hertz da Argentina para 60 hertz no Brasil, o sistema não pode operar. A antecipação da importação de mais 1,1 mil MW de energia da Argentina faz parte das medidas que as autoridades e distribuidoras dos três estados da Região Sul apresentaram à Câmara de Gestão da Crise para escapar do racionamento e adotar apenas um programa de ''racionalização''.
O presidente da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), Vicente Rauber, minimizou os impactos do atraso no cronograma. ''Em novembro nunca iria entrar em operação. Estávamos prevendo para janeiro'', disse o dirigente da distribuidora estatal gaúcha. Além do Rio Grande do Sul, que não é auto-suficiente na geração da energia que consome, os problemas em Garabi também podem afetar o Sudeste.
Parte dos cerca de 1,1 mil MW que já estão sendo importados da Argentina tem servido para desafogar a Região Sudeste, que recebe em média 1,9 mil MW de carga do Sul. Os três estados da região deverão chegar ao verão consumindo 7,5 mil MW - exatamente a mesma carga que está sendo gerada nas hidrelétricas e térmicas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Mantidas essas projeções, as transferências do Sul para o Sudeste podem cair durante o verão para uma carga equivalente à energia importada.


