'Ativistas estão com o foco errado'
Martin Wolf
do Financial Times
Milhares de pessoas prósperas se manifestarão em favor da perpetuação da pobreza. Classificarão seu protesto como uma mobilização pela justiça mundial. Se bem-sucedidos, os protestos contra o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderiam prolongar a pobreza à qual dizem se opor. A questão de justiça não envolve o papel dessas instituições na economia liberal, mas a necessidade de existir essa economia.
A única alternativa ao crescimento seria a redistribuição da riqueza mundial. Em 1998, de acordo com o Bird, a renda per capita mundial média era de US$ 6,2 mil (em termos de paridade de poder aquisitivo). Os 885 milhões de habitantes dos países ricos têm rendas per capita médias da ordem de US$ 23,4 mil, enquanto os 3,5 bilhões de pessoas nos países mais pobres têm rendas de apenas US$ 2,1 mil.
Os defensores dessa alternativa têm pouca esperança de conseguir a redistribuição que seria necessária para superar a distância descomunal entre rendas. Assim, descartada essa redistribuição mundial, apenas acontecimentos dentro dos países em desenvolvimento podem eliminar a pobreza em massa.
Aqui, há evidências claras em favor de duas proposições: primeiro, o crescimento sustentado eleva as rendas reais dos pobres; em segundo lugar, a exploração de oportunidades na economia mundial contribui poderosamente para o crescimento.
Quanto à primeira dessas proposições, um estudo (*) ainda inédito de dois economistas do Banco Mundial, David Dollar e Art Kraay, oferece o que parecem ser evidências incontestáveis. Usando uma amostra de 80 países ao longo de duas décadas e definindo como pobres as pessoas localizadas nos 20% inferiores da pirâmide de renda , eles chegaram a quatro conclusões.
Em primeiro lugar, a renda dos pobres tende a subir em proporção semelhante à da população como um todo; segundo, o efeito do crescimento sobre a renda dos pobres é igual nos países pobres e nos ricos; terceiro, a renda dos pobres não cai desproporcionalmente durante crises econômicas; e, por fim, a relação entre redução de pobreza e crescimento não mudou na era da globalização.
Nada disso deveria causar controvérsia. Mais de dois terços das pessoas que sobrevivem com menos de US$ 1 ao dia vivem no Sudeste Asiático e na África Sub-Saariana. Sabemos, igualmente, que as maiores reduções na pobreza em massa ocorreram na região decrescimento: o Leste Asiático.
O estudo de Dollar e Kraay indica que as políticas que os economistas recomendariam para melhorar o crescimento do país ajudariam os pobres. Inflação alta faz mal ao crescimento geral e prejudica os pobres em especial. Nada disso deveria ser visto como uma simples economia de benefícios desiguais: a estabilidade macroeconômica e aplicação honesta das leis beneficiam diretamente as pessoas mais pobres.
O estudo de Dollar e Kraay também conclui que a abertura comercial eleva a renda média, pois não há uma relação direta entre maior abertura comercial e crescente desigualdade. Assim, os ativistas não estão apenas errados. Querendo ajudar, eles pretendem eliminar o único remédio eficiente para a pobreza em massa. Mas é importante dizer que tudo isso não significa que o Banco Mundial e o FMI sejam instituições acima da crítica. Há espaço para debate sobre todos esses pontos.
(*)Growth is Good for the Poor, março de 2000





