Atacado prevê caos no abastecimento
Oswaldo Petrin
De Londrina
O abastecimento de arroz e feijão vai virar um caos. É ilusório achar que a queda momentânea de preços beneficia o consumidor. Se o governo não organizar o setor com uma política de produção e consumo, vamos acabar importando tudo. Ou, no caso do feijão, vamos perder o hábito de consumo, coisa que já vem ocorrendo. Um produto estratégico como o feijão não pode cair de 50% de uma safra para outra. Isto significa ausência de produção na safra seguinte e nova explosão de preços.
O alerta é do presidente da Associação Brasileira dos Cerealistas (Abrace), Manoel da Costa Pereira. Ele expôs o problema do abastecimento na reunião de ontem da Câmara Setorial do Arroz e Feijão do Estado de São Paulo. Antes, em entrevista a este jornal, Manoel da Costa comparou preços praticados pelo atacado ano passado com preços atuais. O produtor do feijão não está conseguindo cobrir o custo de produção e isto não é bom para ninguém, disse. Já a importação de arroz em profusão, para o presidente da Abrace só serve para garantir produtores argentinos em detrimento dos nossos produtores. Não sei o que o governo espera para adotar uma política de abastecimento que busque equilíbrio e evite sazonalidades tão acentuadas.
O Estado de São Paulo está partindo para isto, informa o presidente da Abrace: quer evitar excedentes e consequentemente distorções no abastecimento que beneficiam importadores e especuladores em prejuízo das duas pontas mais importantes, a produção e consumo. É o único Estado a orientar o produtor neste sentido disse.
Varejo não colabora O setor atacadista vem denunciando os supermercados que não repassam para o consumidor a brutal queda no preço do feijão. Se o varejo reduzir a sua margem de lucros hoje entre 40% e 50% o consumo poderia aumentar e toda a cadeia produtiva do feijão seria beneficiada, segundo raciocínio da Abrace.
Os dados que a Abrace levou ontem para a Câmara Setorial do Arroz e Feijão apontam acentuada desproporção entre os preços. Em maio de 1998, pico da comercialização, a saca de feijão no atacado teve preço médio, em dólares, de US$ 108,79, praticamente o mesmo valor em reais. No ano seguinte, no mesmo mês, o preço médio foi de US$ 22,47/saca. Mesmo considerando que no início do ano houve ajuste cambial (o que elevaria o preço em real da mesma saca a cerca de R$ 44,00) fica evidente que o diferencial é muito alto. Apesar de acentuadas, essas variações não são repassadas ao consumidor. A Abrace também compara o preço médio, em dólar, de março do ano passado (US$ 29,41/saca) com o preço médio de março deste ano (US$ 14,35/saca). O impacto negativo dessa queda sobre o produtor deve levar em conta ainda as variações do dólar.
Na opinião de Manoel Pereira, a presença do governo não deve ser paternalista no sentido de bancar estoques, etc. mas no sentido de orientar a produção. Planta-se desordenadamente num ano e importa-se desordenadamente no outro. O País acaba de colher 3,3 milhões de toneladas de feijão para um consumo de 2,8 milhões. Ano passado o consumo era de 3,1 milhões de toneladas. O excedente de hoje é o inverso proporcional da oferta de amanhã.
Nunca foi tão ruim para a agricultura. Será que o governo e a sociedade ainda acreditam que se o preço é ruim para o produtor é bom para o consumidor?, pergunta o representante dos atacadistas. Esta exclusão, na opinião dele, é derrotista e está levando o País ao caos.
A Abrace representa cerca de 300 dos mais de 400 grandes atacadistas que operam no País, concentrados principalmente em São Paulo e que movimentam mais de 70% da comercialização de feijão e arroz.Presidente da Abrace alerta para crise na produção e diz que queda do preço é ilusória: só serve para matar a agricultura
ArquivoOFERTA IRREGULAR Produção e oferta desordenadas, comprometem o abastecimento, acusa Associação dos Atacadistas





