Ata do Copom indica novos aumentos da Selic
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sexta-feira, 26 de novembro de 2004
Sheila DAmorim<BR>Agência Estado 
Brasília - Depois de cinco meses tentando, sem sucesso, fazer com que o mercado financeiro, os empresários e os formadores de preços passem a esperar, e trabalhar, com uma inflação mais baixa no próximo ano, o Banco Central ameaçou promover um aumento ainda maior nos juros para reverter essa situação. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada ontem, os diretores do BC destacam que os agentes econômicos continuam pessimistas, prevendo índices acima do esperado pelo governo, apesar da melhora nos fatores que mais pressionam os preços e dos aumentos sucessivos na taxa Selic. Esse recado duro e claro ao mercado foi o bastante para que os analistas a apelidassem de Ata ''Malvada''.
Os diretores do BC alertaram que para manter o ajuste gradual dos juros, como pretendiam inicialmente, será preciso que não haja uma piora nos principais ''fatores de risco'' para inflação. ''Entre outras considerações, é necessário que o cenário recente dos preços internacionais do petróleo não se deteriore e que se reverta a rigidez observada na dinâmica das expectativas de inflação até o momento'', alertam. Caso contrário, ''a autoridade monetária estará preparada para alterar o ritmo e a magnitude do processo de ajuste nos juros básicos iniciado na reunião de setembro do Copom'', avisam.
A cotação do petróleo no mercado internacional recuou, a moeda brasileira se valorizou frente ao dólar e o crescimento da economia está mais acomodado. Ainda assim, ''tais fatores não foram capazes de alterar suficientemente as perspectivas para a dinâmica futura da inflação'', ressaltam os diretores do BC. Há três semanas consecutivas, a pesquisa feita pelo BC junto a consultores e especialistas do mercado financeiro mostra que a projeção de inflação para 2005 está em 5,9%, acima dos 5,1%, que é o alvo estabelecido pelo BC.
Como essa piora nas expectativas acaba influenciando o comportamento dos preços atuais, o BC tem tido dificuldades para manter o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice que serve de referência para o sistema de metas, dentro da trajetória desejada.
O anúncio ontem pela Petrobras de novo reajuste nos combustíveis poderá dar um alívio ao BC contribuindo para melhorar as expectativas com relação a inflação de 2005. Isso porque o aumento já repercutirá parcialmente no IPCA deste ano. No entanto, uma parcela ainda deverá influenciar a inflação do início de 2005.
O reajuste de 4,2% para gasolina pode ser acomodado na inflação de 2004, que está projetada em 7,3%, abaixo do teto de 8%. Isso apesar de a ata mostrar que o reajuste promovido anteriormente no álcool praticamente estourou a projeção feita pelos diretores do BC de aumento de 9,5% nos combustíveis neste ano.
O problema é que, apesar de repercutir mais rapidamente na economia, o aumento da gasolina afeta uma parcela menor da população que utiliza automóveis e, por isso, tem impacto menor na inflação. Já o óleo diesel altera diretamente o valor de fretes e transportes coletivos, tem maior peso na inflação e leva até três meses para repercutir integralmente nos demais preços. Assim, o reajuste de 8% ainda influenciará o IPCA do início de 2005.
Outra fonte de preocupação do BC é a indefinição do comportamento do petróleo no mercado internacional. ''As previsões sobre a trajetória futura dos preços do petróleo continuam marcadas por grande incerteza, concentrada, no momento, nas dúvidas a respeito do alcance e da persistência da mudança recente de tendência'', afirmam os diretores na ata.


