Uma briga que se arrasta por mais de quatro anos entre entidades de defesa do consumidor e associações médicas do Brasil, contra os produtores de álcool líquido, ganhou força com a campanha que a Pro Teste - Associação Brasileira de Defesa do Consumidor - iniciou, em agosto, para derrubar a liminar do Tribunal Regional Federal da 1 Região, em Brasília, que tem permitido a continuidade da venda direta do álcool líquido ao consumidor, desde o início de 2003.
A Pro Teste destaca os perigos que o produto representa para o consumo e sugere apenas a venda do álcool gel. Como defesa, a Associação Brasileira de Produtores e Envasadores de Álcool (Abraspea), alega, principalmente, que a produção de álcool gel é mais onerosa.
''A Abraspea alega que aumenta os custos para produzir o álcool em gel, diz que os pequenos produtores acabariam no prejuízo. Mas, o mais importante é a segurança da família'', frisou Karin Veloso Mazorca, advogada da Pro Teste. Segundo ela, o que tem sido o foco da campanha - que pretende reunir perto de 1 milhão de assinaturas de consumidores para serem enviadas ao Governo - são as queimaduras provocadas por acidentes com álcool líquido. Cerca de 150 mil pessoas são vítimas desse tipo de acidente, anualmente, segundo números da Associação Médica Brasileira de Medicina, da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade Brasileira de Queimados.
Conforme Karin, o problema é que o álcool líquido faz o fogo se espalhar mais rápido, o que provoca queimaduras profundas e o tratamento é bastante doloroso. ''No período de seis meses, em 2002, que a venda do álcool líquido ficou proibida, o número de acidentes, já citados, reduziu em 60%'', destacou a advogada.
Ela reiterou que a decisão da Justiça, em 2003, em conceder o pedido da Abraspea, foi um retrocesso, com a volta de números alarmantes de queimaduras, decorrentes de acidentes com o uso do produto. As entidades de defesa do consumidor e as do segmento médico pedem que a Câmara Federal unifique e vote em caráter de urgência, os projetos em tramitação tratando da proibição da venda do álcool líquido.
Bactericida - A Pro Teste também destaca que a proibição da venda de álcool líquido diminuiria as despesas do Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento de uma pessoa queimada dura em torno de três meses e custa cerca de R$ 1,5 mil por dia, conforme informações da entidade. ''Além de evitar o sofrimento das pessoas, pois os acidentes diminuíriam, o SUS também teria uma despesa a menos'', comentou Karin. ''Há também uma cultura do álcool líquido no Brasil. As pessoas acham que o produto tem o poder bactericida, e o aplicam em machucados. Mas o único produto que tem esse poder é um de uso extritamente hospitalar'', reforçou a advogada da Pro Teste.
A Abraspea, no entanto, informou que o número de pessoas queimadas, vítimas de acidentes com álcool líquido não passa de 3,5 mil, anualmente. Conforme o consultor da entidade, Ary Alcântara, o número é do DataSUS, órgão que faz esse tipo de estatística. O número também está incluído no site do Ministério da Saúde. ''Nos preocupamos com os acidentes, mas isso não é comum, como dizem. Na verdade, nosso consumidor sabe usar perfeitamente o álcool líquido'', comentou o consultor.
Segundo Alcântara, os fabricantes de álcool líquido apontam que a produção do mesmo item em gel é bem mais cara, o que deixa o produto para o consumidor final com um preço também mais alto. ''Também é importante pensar que o álcool líquido não é tão mais perigoso como qualquer outro produto do gênero. Não precisa proibir a venda desse produto. É preciso, então, conscientizar a população sobre o uso adequado'', ressaltou.

Serviço:
- Para saber mais informações sobre a liminar e sobre o abaixo assinado proposto pela Pro Teste, basta acessar o site da entidade: www.proteste.org.br

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