Associação Comercial do Paraná
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de março de 1998
Arnaldo Macedo Caron 
Os estatutos da vestuta Associação Comercial do Paraná rezam:
Art. 14 - a duração do mandato de membro do Conselho Superior, do Conselho Deliberativo e da Diretoria é de 2 (dois) anos. 1º. Não é permitida a reeleição do presidente por 1 (um) mandato consecutivo. 2º. É obrigatória a renovação de 1 (um) terço, no mínimo, em cada eleição, dos membros do Conselho Deliberativo e da Diretoria.
Por que a Assembléia Geral da ACP tomou esta decisão da não reeleição do presidente? Muitas outras associações e federações permitem a reeleição. Não era diferente na ACP. Para obtermos a resposta, voltemos um pouco no tempo desta Casa que tem 107 anos de existência.
Foi seu primeiro e valoroso presidente o comendador Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul (6 de agosto de 1890). Pela sua vida empresarial de sucesso, aliada a sua intensa atividade comunitária, participando de construções de escolas, associações, fundações do Clube Curitibano e várias outras atividades, não faltou quem invejasse o prestígio alcançado pelo barão, que era apolítico.
Na Revolução Federalista, os responsáveis pela segurança dos curitibanos, o presidente do Estado, Dr. Vicente Machado, e o corajoso general Pêgo Junior, comandante do 5º Distrito Militar, fugiram para Castro, onde instalaram a sede do governo, deixando a população civil curitibana totalmente desprotegida.
Foi o destemido e corajoso Barão do Serro Azul, junto com um grupo de empresários ligados à Associação Comercial, negociar com o temível general Gumercindo Saraiva, para que fossem evitados os saques e respeitadas as famílias. Porém, Saraiva precisava de dinheiro para suas tropas e a única forma de impedir que isso acontecesse seria levantar fundos junto ao comércio, o que foi feito.
Para quem estava no caldeirão dos acontecimentos era a solução para prevenir um mal maior. Porém, para quem estava na segurança de um governo instalado na cidade de Castro, apontava-se como traição o ato do barão e seus amigos.
Por isso pagou com a vida, frente aos covardes de sempre, que só põem a cabeça para fora depois que se vislumbra claramente o lado vencedor.
Assim morreu o primeiro presidente da Associação Comercial do Paraná. Um herói de Curitiba, do Paraná e do Brasil. Um exemplo de homem.
Daí para o medo coletivo, foi um pulo. Foram buscar o comendador José Ribeiro de Macedo, avô materno do autor destas linha, homem de grande estrutura moral e respeitabilidade, amigo do barão do Serro Azul, para ser o segundo presidente da ACP. E, naqueles tempos difíceis, instaram para que cumprisse um segundo mandato e ao término deste não aceitou nova reeleição, tanto porque era favorável à renovação, como também precisaria ausentar-se de Curitiba para atender diretamente a administração de seus engenhos de erva-mate situados no Timbu (Quatro Barras) e Riachuelo (Campina Grande do Sul).
Porém, novamente foram buscá-lo em 1913, e ele ficou até 1917. (Morreu ao terminar seu quarto mandato).
Salientamos que estes homens permaneceram à frente da ACP, a rogo de seus concidadãos, face à estrutura moral, coragem e serenidade para enfrentar as dificuldades e insegurança da época.
Cada presidente, cada indústria ou casa comercial, tem, naturalmente, suas épocas difíceis. Na ACP tivemos mais recentemente um Oscar Shrappe Sobrinho, um Noel Lobo Guimarães e um João Chalbaud Biscais, todos expoentes da indústria e do comércio, e após, Carlos Alberto Pereira de Oliveira, este, sereno, firme e de dignidade a toda prova, como os seus antecessores. A comunidade paranaense mantém respeito, admiração e amor a este homem maravilhoso que, deixando a medicina para ficar à frente dos negócios da família, assumiu a presidência da ACP em época do regime militar, implantado em 1964, com a imprensa amordaçada sob severa censura. Porém, face a sua respeitável estrutura moral, tinha voz junto aos governantes estaduais e na esfera federal.
Carlos Alberto deixou seus negócios para dedicar-se à ACP. Igualmente como no ano passado, todos tinham medo e ninguém queria assumir a presidência da ACP, pois temiam o crivo do SNI e a possibilidade de prejudicarem-se nos negócios. E assim, o destemido Carlos Alberto, com independência e coragem, criticava atos do governo, abertamente, chamando-os à razão das necessidades reais do comércio, da indústria e da agropecuária.
Substituir Carlos Alberto ficou dificílimo, pois seu carisma praticamente é insubstituível. Na atualidade, dá mais um exemplo digno de nota. É o único ex-presidente assíduo nas reuniões dos conselhos e diretoria, onde, com suas lúcidas intervenções, contribui para as decisões dos rumos seguros a seguir.
Assim é que, com a atribulada vida de hoje, quando o presidente da ACP precisa ter praticamente todo o tempo disponível para atender aos compromissos do cargo, que não é remunerado, e sendo normalmente um empresário, não importando qual sua grandeza material, decidiu sabiamente a ACP, em assembléia geral, não permitir a reeleição do presidente, até porque também se abre na comunidade a condição de criarem-se novas lideranças.
Concluiu-se que a formação contínua de lideranças comunitárias só é fortalecida com a rotatividade dos cargos, a exemplo do Rotary e Lyons, que anualmente trocam suas diretorias a nível mundial, não havendo reeleição. Um TEMPO é um TEMPO. Como a vida, tem que ser administrado e vivido não importa qual a nossa permanência na Terra. Se o mandato é de dois anos, devem ser administrados estes dois anos.
O mandato de cada um reflete-se na administração da normalidade, modalidade e condições básicas de acompanhar o desenvolvimento local, nacional e mundial e seus segmentos como um todo, voltado para os interesses dos associados e, consequentemente, da sociedade e interesses de Curitiba e do Paraná.
Nesta forma tivemos vários excelentes presidentes como Werner Egon Shrappe, Maria Christina de Andrade Vieira, Eduardo Guy de Manuel e o atual presidente Ardisson Nain Akel, cada qual cumprindo seu mandato, cada um com seu estilo, porém respeitando os estatutos, inclusive rechaçando qualquer tentativa ou proposição de formulações casuísticas de continuidade.
Se houvesse reeleição, teríamos sido privados da liderança de muitos dos nomes acima citados, o que seria lamentável.
Porém, o presidente não é o único a dirigir a associação, que tem contado com a intensa atuação de dedicados 20 vice-presidentes, 20 membros do Conselho Superior e 20 membros do Conselho Deliberativo, acrescido pelos membros dos vários Conselhos, das Câmara Setoriais e da Arbitac, equipes estas do mais alto nível e que emprestam seus esforços para que a ACP continue em seu desenvolvimento em prol do empresariado curitibanos e, no caso paranaense, através de seus representantes na Federação das Associações Comerciais, Industriais e Agropecuária do Paraná, FACIAP. Esta congrega 240 associações no Estado e hoje é presidida por Farage Kouri, da Associação Comercial e Industrial de Londrina.
E isto só se consegue dando oportunidade a todos para que nossa querida Associação Comercial do Paraná, que é de Curitiba, continue sempre trilhando no presente e projetando para o futuro os caminhos gloriosos do passado.
Segundo os estatutos, as eleições serão realizadas na segunda quinzena do mês de junho.


