Carmem Murara
‘‘Negócios da China para os compradoras, mas péssimos para o Brasil’’. É assim que o jornalista Aloysio Biondi define o processo de privatização das estatais brasileiras, iniciado há cinco anos e que está em pleno vigor. Biondi acusa o governo federal de ter esfacelado o País com a privatização em seu livro ‘‘Brasil Privatizado - um balanço do desmonte do Estado. O livro foi lançado na semana passada em Curitiba.
Biondi avalia que a venda das estatais começa a levar o Brasil para uma situação de crise econômica acentuada, pois as empresas foram vendidas para grupos estrangeiros que cada vez mais aumentam a remessa a dinheiro para o exterior. As multinacionais remeterem para o exterior R$ 600 milhões, em 1994, contra R$ 6 bilhões em lucros, no ano passado.
‘‘O Brasil está voltando à situação que tinha na década de 50, quando o País não exportava o suficiente para ter superávit e não havia dólar para pagar as importações’’, afirma Biondi. Somente no setor elétrico, as importações superaram as exportações em US$ 8 bilhões, no ano passado e, no setor de telecomunicações o déficit foi de US$ 2 bilhões. ‘‘Os telefones celulares que usamos são feitos com 100% de peças importadas’’, exemplifica o jornalista.
Como exemplo de entrega do País ao capital estrangeiro, Aloysio Biondi cita o caso da venda de um terço do capital social da empresa, no ano passado. Na época, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi autorizado pelo governo federal a emprestar metade do dinheiro necessário para a compra a um grupo estrangeiro, o que era proibido até então. Um ano depois, veio à tona a informação de que o BNDES emprestou 100% do dinheiro necessário para que a empresa norte-americana efetuasse a compra das ações da Cemig, no valor de R$ 1,1 bilhão. ‘‘Empresas sem dinheiro estão comprando as empresas que foram feitas com o nosso dinheiro’’, ironiza o jornalista. Metade do empréstimo feito no caso da Cemig foi com uma taxa de juros de 12% ao ano.
Um dos resultados diretos da entrada da iniciativa privada na Cemig foi a mudança na distribuição de dividendos da companhia. A Cemig distribuiu 97,5% dos lucros obtidos no ano passado, mandando boa parte para o exterior.
Outro detalhe apontado como irracional pelo jornalista no processo de privatização é o investimento que o governo federal fez para privatizar. ‘‘O governo gastou mais preparando as empresas para a venda do que recebeu com a venda delas’’, afirma. Com isso, a dívida pública estourou de R$ 27 bilhões, há quatro anos, para R$ 130 bilhões, previsão para este ano.

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