Passados quatro anos e meio de tranquilidade, parece que o governo resolveu fazer todas as mudanças que não fez ao longo desse período em pouco tempo. Mal o ano começou, caiu Gustavo Franco e entrou Francisco Lopes. Menos de um mês depois, o ministro Malan anuncia a demissão de Lopes e a indicação de Armínio Fraga para a presidência do BC. Motivo alegado: Fraga seria o homem ideal para intervir no mercado e defender o real, agora subvalorizado em relação ao dólar.
Convenhamos, leitor, é muita mudança em tão pouco tempo!
Por trás da desculpa oficial, esconde-se o verdadeiro motivo da saída de Chico Lopes: divergências entre ele e o ministro Malan no período em que o real flutuou livremente. Dois exemplos: o episódio da banda larga do real, que durou um dia; e a última sexta-feira de janeiro, dia 29, durante a qual, os boatos trouxeram de volta o velho ‘‘fantasma’’ do confisco, que aterrorizou os brasileiros no início da década.
O curioso é que Chico Lopes, juntamente com Gustavo Franco e Luiz Carlos Mendonça de Barros, passou a fazer parte de um conselho de ex, que dará consultoria ao presidente FHC. Daqui a alguns meses, do jeito que a coisa vai, essa plêiade de ex será mais importante do que a equipe de ministros.
Não há dúvidas quanto à capacidade de Armínio Fraga para comandar o barco no meio da tempestade em alto mar. Ele, dizem, já esteve dos dois lados do balcão e, além de ‘‘scholar’’ brilhante, como seu antecessor, exibe a vantagem de ter dirigido um dos maiores fundos americanos de investimentos, especializado em papéis de países emergentes. Trocando em miúdos: já trabalhou para o húngaro-americano, George Soros, que tem um patrimônio de nada menos do que U$ 20 bilhões. Portanto, ele seria a pessoa certa para enfrentar a atual turbulência.
Algumas coincidências que cercaram a troca de comando no Banco Central, no entanto, não passaram despercebidas ao crivo do leitor mais atento: no domingo, em entrevista publicada pela ‘‘Folha de São Paulo’’, o megainvestidor George Soros havia dito, dentre outras coisas, que o Brasil já cometera todos os erros possíveis na condução da política econômica e que por isso necessitava de ajuda externa (do FMI e do G-7); no dia seguinte, em Davos, na Suíça, acrescentou que o real estava subvalorizado em relação ao dólar; no mesmo dia, chegava ao Brasil Stanley Fisher, vice-diretor do FMI. Na terça, Malan anunciou a saída de Chico Lopes.
Ironicamente, em recente entrevista à ‘‘Isto ɒ’, o ex-presidente do Banco Central comparou o Plano Real ao filme ‘‘Kagemusha’’, de Kurosawa, para concluir, como a personagem do príncipe Shingen, que ‘‘o guerreiro (o samurai), quando tira a espada, tem de sujá-la, nem que seja com o próprio sangue’’.
Parábolas à parte, o que preocupa a todos nós (empresários, trabalhadores e classe média) é a rapidez das mudanças. O governo parece estar tomando providências na base do ‘‘aqui, agora’’. É verdade que a velocidade da crise assim o exige. Mas, como diz o ditado popular, a pressa é má conselheira. Portanto, só nos resta esperar que a turbulência cambial passe e as mudanças de nomes parem por aí. Restabelecida a necessária credibilidade, o governo precisa atacar os problemas mais graves, que são os juros elevados, a recessão, o desemprego e a dívida interna, dentre outros.
Mas e se a crise não passar, deve estar se perguntando o leitor, quem será a próxima vítima? ‘‘Não se iludam, não me iludo’’, diz Gilberto Gil; ‘‘tudo pode estar por um segundo’’.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).
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