Hospitais sem medicamentos, pacientes em estado grave espalhados pelos corredores, salas de aula sem portas e escolas abarrotadas, chefes de família sem trabalho essas algumas das feridas sociais da Argentina, que parece esvair-se sob o peso de uma crise histórica. ''Temos enfermos em corredores, espalhados pelo chão. Os que precisam de aparelhos de respiração artificial são colocados na saleta dos enfermeiros, enquanto parturientes esperam em fila por uma cama''.
Esse testemunho, que parece próprio de um país em guerra, é de Silvia Lasarte, médica do Hospital Municipal de Pilar, cidade da província de Buenos Aires, a 50 quilômetros da capital. A região é a mais povoada do país. Nestes dias de crise financeira, tem sido cenário de uma nova experiência econômica o pagamento aos funcionários públicos com bônus. Para completar o quadro desolador, Lasarte comenta que o hospital não dispõe de vacina antitetânica há mais de um ano, e que a tuberculose aumentou de forma impressionante na região. Ela viaja a cada domingo até Pilar para um plantão de 24 horas, cujo pagamento não ultrapassa os US$ 120, mais um adicional de US$ 100, que não receberá se faltar uma única vez.
Nas proximidades de Pilar, em cujo hospital são atendidos centenas de pobres, desempregados e imigrantes ilegais, são muitos os condomínios de luxo e clubes de campo, onde moram os privilegiados, de renda alta, amparados por planos de assistência médica privada. ''Quando algum deles, por acaso, vem parar aqui, pede pelo amor de Deus para que não lhe apliquemos sequer um soro'', conta Lasarte. ''Aqui, espalham-se pelos corredores, em macas, pacientes com patologias graves e acidentados que precisam de amputações. E essas são cenas que os assustam''.
Os problemas médicos se mesclam com outros tipos de necessidade. Lasarte conta o caso de uma equipe que foi atender ao chamado de uma família e se deparou com várias crianças famélicas à porta. Têm sorte os que podem contar com amostras grátis trazidas pelos próprios médicos.
Na mesma província de Buenos Aires, mas no distrito de La Matanza, o vice-diretor da escola 202, Gabriel Szklair, também parece falar de um outro país, muito diferente do que é apresentado na imprensa, e praticamente inexistente nas análises de funcionários, parlamentares e especialistas. Szkliar diz ter sorrido, ao escutar uma declaração do ministro da Educação sobre o envio de um projeto de lei ao Parlamento para impor um mínimo de 180 dias de aula no ano escolar, ''para recuperar o tempo perdido com greves''. ''Rio para não chorar. Calculo que os meus alunos não terão, este ano, nem 70 horas de aula, e não será só por causa de greves'', explica.
Só em Matanzas, o distrito mais povoado da província, há mais de quatro milhões de alunos no ensino primário, dez vezes mais que na Capital. Segundo Szkliar, no início do atual período escolar, a escola, com 820 alunos, tinha tal déficit de vagas que foi necessário estabelecer turnos nas várias séries. (Agência IPS)

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