Representantes do Ministério da Agricultura viajam este mês para os EUA com o intuito de reverter o embargo norte-americano à carne brasileira
Representantes do Ministério da Agricultura viajam este mês para os EUA com o intuito de reverter o embargo norte-americano à carne brasileira | Foto: Shutterstock


O embargo da carne bovina in natura brasileira pelos Estados Unidos mostra a fragilidade do setor e coloca em risco as exportações de outros produtos, como aves e suínos, importantíssimos para a economia do Paraná. É desta forma que os especialistas do setor avaliam a suspensão da importação, anunciada na semana passada. Representantes do Mapa viajam este mês para os EUA com o intuito de reverter a situação. Em setembro também está prevista uma reunião entre técnicos dos dois países.

O veto à carne in natura do Brasil interrompe um canal de exportação que demorou muito tempo para ser aberto. Foram 17 anos de negociação para convencer os norte-americanos a comprar a carne bovina brasileira. Entretanto, logo se mostrou a fragilidade do produto nacional que estava sendo enviado. Após a Operação Carne Fraca, os EUA começaram a vistoriar todos os lotes brasileiros vendidos, 11% acabaram sendo rejeitados. O máximo permitido era de 1%. O motivo é uma reação da vacina contra a febre aftosa, que pode gerar um abscesso na pele do animal, algo comum devido aos próprios componentes químicos da vacina ou até pequena contaminação do local.

Desde que o mercado foi aberto novamente, o Brasil havia comercializado 12 mil toneladas de carne bovina para os EUA entre setembro e dezembro de 2016, movimentando quase US$ 49 milhões, se tornando o 5º maior comprador neste pequeno período. Em 2017, no primeiro quadrimestre, foram 15,6 mil toneladas enviadas. Neste tempo, o Paraná, apesar de um frigorífico habilitado, não exportou volume nenhum.

Imagem ilustrativa da imagem As consequências do embargo



Imagem arranhada

O diretor presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), o médico veterinário Inácio Afonso Kroetz, salienta que "esse problema mais uma vez arranhou a imagem do País frente aos mercados competidores e isso pode refletir nas vendas de outras carnes, como de aves e suínos". Vale dizer que o Paraná é o principal exportador de aves do Brasil e o segundo maior produtor de carne suína. "Temos uma necessidade de corrigir essa imagem, que mais uma vez foi abalada. Uma 'não conformidade' não pode atingir 11% dos lotes, quando está estipulado apenas 1%".

Do ponto de vista técnico, Kroetz relata que a vacina sim pode gerar tais lesões, que são deformações das fibras da carne, irritação no local, pequenas alergias e até caroços. Isso, sem dúvida, gera prejuízos ao produtor e ao frigorífico. "A vacina tem esse componente irritante para o tecido e muitos inclusive querem reduzir a dose dela para evitar esse tipo de problema. Vale dizer também que a pele do animal não é asséptica".

Todo esse problema dos abcessos que podem ser gerados pela vacina, mais uma vez, não deixam dúvidas para Kroetz de que o ideal é que a vacina deixasse de ser aplicada, fortalecendo outras formas de defesa e vigilância. No Brasil, apenas Santa Catarina é considerada pela Organização Mundial de Saúde Animal livre de aftosa sem vacinação, desde 2007. "Os EUA foram bem criteriosos e pode ser um recado para o mundo sobre a qualidade da nossa carne. Não podemos ser ingênuos e achar que não existe uma pressão comercial forte por parte dos setores político e privado deles sobre o assunto, inclusive por termos um custo de produção inferior. Mas o fato é que temos muito o que melhorar".

Por fim, Inácio complementa que o fim da vacinação, de fato, além de encerrar essas questões de lesões na carne também provaria aos americanos que não há nenhum risco de febre aftosa no País. "O questionamento sempre é: se o Brasil não tem mais aftosa, por que continuam vacinando? Os Estados Unidos têm um controle muito rigoroso em relação à qualidade e sanidade e vender para eles abre espaço para outro

Cenário turbulento gera queda na arroba

Operação Carne Fraca, delação da JBS, embargo dos Estados Unidos, mercado mais desaquecido. Definitivamente, o primeiro semestre de 2017 para os produtores de carne bovina não foi muito positivo. Os números provam por si só: entre janeiro e maio, a retração da arroba no Paraná chegou a 7,4%, saindo de R$ 148,7 para R$ 137,7. No comparativo entre os meses de maio deste ano e de 2016, a queda é de 5,5%.

Essa diminuição acentuada somada a um consumidor menos empolgado para se alimentar com a proteína – que é a mais cara comparada a aves ou suínos – fez com que todos os cortes levantados pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura (Seab) sofressem queda nos primeiros cinco meses. O mais brusco foi o da alcatra (-8,8%), seguido do coxão mole (-8,7%) e filé mignon (-7,3%).

Segundo o médico veterinário e técnico do Deral Fábio Mezzadri, a delação da JBS trouxe incertezas e falta de confiança dentro do setor pecuário. Com a empresa concentrando de 40% a 50% na capacidade abates de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, muitos pecuaristas dessas regiões acabaram direcionando a produção para outros abatedouros, que agora com maior poder de negociação muitas vezes forçam compras a preços menores. "Estamos no pico de safra e os pecuaristas precisam vender antes da chegada do inverno. De um mês para cá, com a chuva ajudando no pasto e as incertezas do mercado, muitos estão tentando segurar os animais na propriedade", explica Mezzadri.

No que diz respeito às exportações paranaenses, os primeiro cinco meses fecharam com 11 mil toneladas enviadas principalmente para o Irã, Hong Kong, Israel e Chile, contra 15,1 mil toneladas do mesmo período do ano passado, uma retração de 27,1%. O valor também caiu, de US$ 40,8 milhões para US$ 33,3 milhões, retração de 18%. "Esta carne que permanece no mercado interno, somada à redução do consumo interno, gera pressão nas cotações. Existe uma expectativa de reação do preço, mas com a intensificação das geadas daqui pra frente, isso provavelmente obrigará os pecuaristas que criam de maneira extensiva a venderam os animais, ocasionando possíveis novas quedas da arroba", complementa. (V.L.)

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