O mercado mundial de ações está sendo severamente abalado por uma série de denúncias sobre fraudes e outras manobras de auditorias/consultorias. A questão é saber se o modelo de ‘‘auditorias independentes’’ das S/A no Brasil garante a acionistas o conhecimento claro da situação das empresas auditadas ou estamos trabalhando com ‘‘caixas-pretas’’.
‘‘A falência da Enron caiu como uma bomba sobre o mercado financeiro americano’’, afirmou o economista Odisnei Bega. De acordo com seu pensamento, o mercado perplexo e milhares de funcionários, que foram incentivados pela direção da própria empresa, a comprarem ações da companhia, viram de uma hora para outra seus investimentos virar pó. ‘‘A surpresa não é para menos, pois trata-se até então da maior comercializadora mundial de energia e que era auditada pela Arthur Andersen, uma gigante do setor, com mais de 85 mil profissionais’’, lembra.
Bega acentua que os administradores de recursos americanos estão em pânico, preferindo a compra de bônus do Tesouro dos Estados Unidos (treasury bonds). ‘‘Esses fatos levaram a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) a mudar regras e exigir maior divulgação dos dados contábeis das empresas’’, informa o economista.
Segundo ele, esses fatos já foram vistos no Brasil com a quebra/falência de grandes bancos, cujos prejuízos estão sendo pagos pela população brasileira e que tinham seus balanços auditados por grandes empresas. ‘‘Acredito ser este o momento oportuno para que a Comissão de Valores Mobiliários exija maior rigor e transparência, estabelecendo regras claras e penalidades rigorosas evitando efeitos desastrosos para investidores e para a sociedade’’, destaca.
Para o economista Luiz Antonio Fayet, ficou muito claro no episódio da Enron, que a promiscuidade entre as atividades de auditoria e de consultoria precisa ser coibida, pois facilita o encobrimento de interesses escusos. Entretanto, o mais importante seria a obrigatoriedade da alternância de auditores, não permitindo que a mesma empresa ou grupo de auditoria trabalhasse por dois exercícios fiscais na mesma empresa. ‘‘Quando fui presidente do Banestado, fizemos uma concorrência para escolha de empresa de auditoria, onde esta condição fez parte do edital’’, observa o economista.
De acordo com sua análise, ‘‘havendo alternância da auditoria, as questões críticas não podem ser adiadas ou varridas para baixo do tapete, elas têm de ser expostas para conhecimento dos acionistas, pois, caso contrário, a auditora expõe sua credibilidade’’. Adicionalmente, acentua, ‘‘isso dificulta que funcionários corruptos ou incompetentes traiam as próprias empresas de auditoria onde trabalham, como parece ter ocorrido com a Artur Andersen no caso da Enron’’.
Finalmente, Fayet afirma que pensa ‘‘que a alternância deveria ser obrigatória, pois, no caso brasileiro, poderia evitar muitos escândalos que ocorreram ou estão ocorrendo e ajudaria a fortificar o mercado de capitais, instrumento importantíssimo para o desenvolvimento do país’’.
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