São Paulo - A redução dos investimentos na área de infra-estrutura, ao longo últimos 20 anos, criou uma armadilha para o ''espetáculo de crescimento'' prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos últimos dias, não faltaram demonstrações de disposição para incluir segmentos como os de energia e transportes reconhecidamente os mais problemáticos nas medidas desenvolvimentistas previstas para o segundo semestre. Mesmo assim, as entidades empresariais se perguntam se o apoio do governo, ainda que bem-vindo, bastará para suprir uma área que demanda capital intensivo para tirar do papel os projetos que servem de suporte para a expansão da atividade econômica.
''A logística já é um limitador para as exportações brasileiras e a situação tende a se agravar sem investimentos pesados na expansão do setor'', afirma o diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele argumenta que, como o País exporta itens primários e básicos, que formam grandes volumes, o custo da logística reflete-se diretamente na competitividade dos produtos brasileiros no exterior. ''Temos de estar preparados para crescer.''
Segundo um técnico do Ministério dos Transportes, o orçamento da pasta precisaria ser ao menos quatro vezes maior do que o R$ 1,7 bilhão previsto para 2003 para tornar viável a execução de um programa ''razoável'' para o setor.
O Modercarga, uma das primeiras iniciativas anunciadas pelo governo já dentro do conjunto de medidas desenvolvimentistas, já está sendo alvo de críticas do setor. O presidente da Associação Nacional dos Transportadores de Carga (NTC), Geraldo Vianna, afirma que o programa dificilmente atingirá o seu principal objetivo, que é renovar a frota nacional de caminhões, porque não inclui medidas para retirar de circulação os veículos antigos.
Gargalo O presidente da Comissão de Infra-estrutura do Senado, José Jorge (PFL-PE), reconhece o setor de transportes como o maior gargalo, hoje, para a expansão da atividade econômica. ''A energia também constitui um problema sério, mas acredito que o setor responda mais rapidamente, desde que sejam criadas condições atrativas para o setor privado'', diz o senador.
Embora sejam menos visíveis, no entanto, os riscos do setor elétrico para o crescimento da economia foram apontados, na semana passada, pela própria ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff. Para um auditório repleto de executivos, no 3º Fórum Brasileiro do Setor Elétrico, em São Paulo, a ministra apresentou projeções que mostravam que, com um aumento do PIB a um ritmo de 5% ao ano o espetáculo prometido pelo governo as sobras de energia do sistema serão gastas até 2007 e, a partir de 2008, haverá risco real de escassez.
Além do anúncio do novo modelo do setor elétrico, que terá entre as metas principais reduzir a percepção de risco e facilitar o ingresso de recursos para empreendimentos de geração de energia, o BNDES estuda meios de reduzir e alongar as dívidas das empresas do setor. Segundo o superintendente da Área de Infra-estrutura do banco, João Carlos Cavalcanti, até o fim do mês os grupos começarão a ser chamados para renegociar suas dívidas com o BNDES.
Empecilho A Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib) estima que seja necessário reunir investimentos da ordem de US$ 20 bilhões por ano apenas para que o setor não represente um empecilho às pretensões desenvolvimentistas do governo. ''A quantia não chega a atender a outros propósitos, como a universalização de serviços, mas já deverá suportar o crescimento da atividade econômica'', avalia o presidente da Abdib, José Augusto Marques.
O superintendente do BNDES estima que o banco poderia responder por pelo menos 20% do montante.

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