Agência Estado
De Buenos Aires
Apesar das ameaças brasileiras, o governo argentino não deu sinais de arrepender-se das medidas protecionistas que levaram o governo do Brasil a suspender as negociações do Mercosul.
‘‘Quem cala consente’’, comentam os analistas, que supreenderam-se ao ver a impassibilidade dos funcionários do governo do presidente Carlos Menem diante da maior crise vivida pelo Mercosul desde sua criação. Os empresários locais, no entanto, começaram a suar frio diante das ameaças do secretário José Alfredo Graça Lima, e defenderam a manutenção do Mercosul, embora considerem que o Brasil deveria ser mais flexível.
O chanceler argentino Guido Di Tella colocou a culpa desta crise na desvalorização do real: ‘‘O Brasil teve que desvalorizar por uma questão circunstancial, ou seja lá pelo que for. Mas o fez, e nós aceitamos. Não chegou a ocorrer uma invasão de produtos brasileiros por causa disso. No entanto, houve um aumento de importações de alguns produtos provenientes do Brasil, e é isso que está em discussão agora’’.
Di Tella, afirmou que reuniu-se com o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Sebastião do Rego Barros, para discutir a crise entre os dois países. Ele é uma pessoa muito simpática, mas tem seus pontos de vista’’. Di Tella afirmou que o Mercosul permanecerá apesar das tempestades, pois considera que ‘‘as razões políticas para que os países estejam dentro do Mercosul são super-determinantes’’.
Analisando as causas da atual tensão entre os principais sócios do Mercosul, afirmou que ‘‘quando o comércio crescia 20 ou 30% por ano, estavamos todos encantados... o comércio é assim: há momentos que vai bem, e momentos que vai mal. O comércio é nervoso’’. O ministério da Economia não se pronunciou sobre a crise com o Brasil. O ministro da Economia, Roque Fernández, somente alegou que a Argentina usou mecanismos jurídicos permitidos pelo Mercosul.
Os industriais argentinos criticaram a ameaça brasileira de suspender as relações comerciais com o país. ‘‘A decisão brasileira provocou um profundo rechaço do setor industrial argentino, devido à falta de racionalidade e justificativa’’, afirmou o presidente da União Industrial Argentina (UIA), Osvaldo Rial. Em comunicado oficial da UIA, os industriais argentinos acusam o Brasil de diversas práticas desleais de comércio.
O governo brasileiro vai recorrer a uma espécie de tribunal do Mercosul, o Mecanismo de Solução de Controvérsias (MSC), para tentar reverter a decisão da Argentina de adotar salvaguardas. Recorrer ao MSC é a última escala de uma série de passos para obrigar um parceiro a mudar normas consideradas prejudiciais. O primeiro passo, já anunciado ontem pelo Itamaraty, é o de pedir uma reunião de emergência do Grupo Mercado Comum (GMC), instância mais
política.

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