Argentina vê fuga de empresas estrangeiras por causa de insegurança com cenário econômico


SYLVIA COLOMBO
SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A empresa de entrega a domicílio espanhola Glovo é a mais recente a integrar a lista das companhias que estão deixando a Argentina desde o agravamento da crise econômica local, já iniciada antes da pandemia, porém agravada pelas consequências das medidas de quarentena decretadas pelo governo para enfrentar o coronavírus.

Nos últimos dias, causou impacto o anúncio de que a cadeia de lojas de departamentos chilena Falabella, presente em vários países da região, fizesse o mesmo. Na Argentina, a Falabella está presente desde os anos 1990 e possui mais de 20 lojas espalhadas por todo o país. A Falabella também atua em outros países da região.



A lista das que estão abandonando solo argentino também é integrada por companhias aéreas como Latam Argentina, Qatar Airways, Emirates e Air New Zealand, empresas de cosmética e farmacêutica como a Pierre Fabre, a indústria de autopeças francesa Saint Gobain Sekurit (fabricação de vidros de automóveis), as seções de produção de pintura automotiva da alemã Basf e da norte-americana Axalta, a fábrica de artigos esportivos da Nike e a de produção de embalagens para o setor farmacêutico da alemã Gerrescheimer.

"Vínhamos arrastando problemas de longa data, mas o atual governo vem agravando isso ao não mostrar um ambiente que seja 'market friendly'. A Argentina reforça a ideia já existente de que é um país que muda as regras a cada tanto, o que causa insegurança", explica à reportagem o economista Raul Ochôa.

Nesta quarta-feira (16), por exemplo, o governo de Alberto Fernández criou um novo imposto de 35% para gastos em cartão de crédito em dólar e mais restrições para a abertura de novas contas na moeda americana, prática comum no país.

Ochôa acrescenta ainda que episódios como a tentativa de nacionalizar a empresa Vicentín, uma das maiores exportadoras de soja do país, manchou a imagem argentina, ainda que o governo tenha retrocedido da decisão.

"Tudo isso gera um clima de negócios ruim, e se soma com outra ponderação muito lógica. A crise que a Argentina vive, a alta inflação e o aumento da pobreza mostram que, no pós-pandemia, este será um país menor, tanto em termos de capacidade de produção como em termos de tamanho do mercado consumidor. Com o poder de compra das pessoas se reduzindo pela inflação, pelo desemprego, pela desvalorização do peso, passa a compensar pouco investir aqui", conclui Ochôa.

No caso da Glovo, parte de seus 3 mil entregadores, que não têm vínculos formais com a empresa, estão sendo reacomodados em outros apps de entrega, como PedidosYa e Rappi. Seus 70 trabalhadores fixos no país perderão o emprego.

A Glovo continuará na região, onde atua também no Peru, no Equador, no Panamá, na Costa Rica e na República Dominicana.

Também a Walmart anunciou que deve deixar o país e está buscando um comprador.

A Falabella lançou um comunicado em que afirma que "a pandemia acelerou o processo de digitalização das vendas no varejo e isso afetou os resultados. Para adaptar-se a esta nova tendência e fazer com que seja sustentável a operação, decidimos fechar quatro lojas em Buenos Aires nos próximos meses", afirma. As demais estarão à venda.

A Falabella possui 4.800 trabalhadores no país.

SEM VOOS

O caso da Latam Argentina foi o que, até aqui, tinha causado mais impacto. A empresa afirma ter buscado o governo para negociar uma redução salarial e das operações, para continuar atuando na área. Mas o decreto presidencial que impede demissões durante a pandemia acabou deixando a empresa sem outra opção que não a de sair de vez do país, deixando 1.700 trabalhadores na rua.

A incerteza sobre quando serão de fato retomados os voos comerciais internacionais também contou para afastar as companhias aéreas internacionais. No início da pandemia, a data determinada era 1º de setembro. Agora, foi adiada para outubro, mas ainda sem certezas e sem protocolos e números de voos por dia definidos.

Para empresas como a Qatar e a Emirates, cujo voo a Buenos Aires era apenas um trecho de uma rota mais longa que passava por São Paulo ou Rio de Janeiro, ficou mais simples eliminar a perna do trajeto que vinha até a capital argentina, desmontando os escritórios e a operação de recepção dos voos no aeroporto de Ezeiza.

As empresas aéreas low cost também estão abaladas pela crise. A primeira a anunciar a saída do país foi a JetSmart, que pertence à Norwegian. A saída das low cost do mercado levará também a um redesenho dos aeroportos da capital. Além do de Ezeiza, o principal para voos internacionais, e o Aeroparque, para voos domésticos e para o Uruguai, havia sido inaugurado havia não muito tempo o aeroporto de Palomar, pensando nas linhas aéreas de baixo custo -essa operação está sendo repensada.

Para o economista Matías Rajnerman, a situação das companhias aéreas é um pouco menos grave, pois a retomada dos voos pode mudar o cenário. "Esse é um mercado que se move de acordo com a demanda. Quando as coisas se normalizarem e voltar a haver interesse em viagens a esse destino, as empresas aéreas podem voltar e podem fazer isso de modo mais rápido do que indústrias ou cadeias de lojas".

Já o consultor Esteban Domecq crê que a pandemia surgiu como um acelerador para essas retiradas. "Em algum momento talvez essas empresas fossem mesmo sair, porque a situação na Argentina era muito ruim; o coronavírus está apenas adiantando essas decisões. Afinal, são oito anos sem crescimento econômico, uma recessão longa."

A Argentina é o segundo país com pior desempenho na evolução do investimento estrangeiro direto por país neste século 21, segundo estudo da ONU entre 202 países.

Algumas indústrias de autopeças estão fechando operações, mas transferindo operações ao Brasil ou ao Chile.

A Nike deixou sua produção local para a mexicana Axo.

Para Ochôa, um agravante desse cenário de saída de empresas estrangeiras da Argentina é o quanto isso afeta o mercado formal, com carteira assinada. A Argentina já é um país com alta informalidade, em torno de 34%.



"Ao destruir postos de trabalho formais, você agrava o sistema de arrecadação tributária do governo, e por outro lado aumenta o número de pessoas que vão para o mercado informal e vivem com mais instabilidade e mais chances de cair na pobreza".

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