Pela primeira vez em várias semanas, a Argentina conseguiu uma trégua por parte dos mercados, graças à promessa da diretoria do FMI de recomendação de uma ampliação da ajuda financeira para este país. A taxa de risco do país despencou quase 200 pontos, passando de 1.651 pontos para 1.454 pontos. A Bolsa de Buenos Aires, eufórica, disparou, fechando em 8,16%, embora somente tenha movimentado pouco mais de US$ 20 milhões.
No governo, o júbilo predominava. Pela primeira vez em vários dias, o presidente Fernando de la Rúa não escapou da imprensa, e sorridente afirmou que o acordo vai ''eliminar as incertezas'' que imperavam nos mercados sobre a Argentina.
Segundo ele, uma redução da taxa de risco do país vai causar uma queda nas taxas de juros e isso permitirá que a arrecadação tributária melhore. ''Desta forma, o cumprimento do plano de déficit 0% não implicará em tantos esforços e sacrifícios dos cidadãos argentinos''.
O ministro da Economia, Domingo Cavallo, deixou de lado seu estilo exuberante, e cauteloso em suas declarações, e afirmou que com esta ajuda ''não haverá milagres''. Segundo Cavallo, o crescimento econômico somente será possível ''com perseverança''. No entanto, o ministro disse que haverá ''uma calma permanente'' daqui para a frente.
O ministro também afirmou que o Fundo Monetário concedeu à Argentina a quantia que havia sido pedida, que finalmente ficou em US$ 8 bilhões de dólares, dos quais US$ 5 bilhões serão entregues em setembro e os restantes US$ 3 bilhões nos início do ano que vem. Cavallo também apelou a um retorno da confiança dos argentinos neles mesmos e nas instituições financeiras do país. No entanto, o ministro admitiu que isso ''não será fácil''.
Cavallo também destacou que conseguiu apoio do FMI para a redução do custo da dívida, embora tenha evitado utilizar com veemência o termo ''reprogramação''. Ele preferiu não entrar em detalhes sobre como seria: ''não estamos falando em uma só operação. Com o FMI estamos analisando várias operações voluntárias e amistosas dos mercados''. O ministro sustentou que o FMI não colocou condição alguma para a concessão da ajuda. ''O Fundo aceitou o programa de déficit fiscal 0% da Argentina''.
Segundo ele, a União já está aplicando o plano de déficit fiscal 0%, que implica em somente gastar aquilo que se arrecada. Cavallo disse que as províncias terão que seguir esse exemplo. Discursando para um evento da Câmara dos Exportadores, o ministro descartou uma desvalorização da moeda para impulsar a competitividade das exportações. ''Na década de 90, até o ano 1997, com uma moeda supervalorizada, conseguimos melhorar as exportações, e isto ocorreu devido a um aumento na produtividade''.
Ceticismo no Brasil Um dos principais analistas da Bolsa portenha, Freddy Vieytes, disse que não há motivos para a reação cética dos mercados no Brasil em relação ao anúncio de acordo com o FMI. ''Os bônus brasileiros subiram bem, mas a bolsa de São Paulo não reagiu tão firmemente''. Vieytes destacou, no entanto, que por um lado o ceticismo tem um quê de razão, mas somente a longo prazo: ''a realidade é que esta novela não terminou. Este é o primeiro capítulo''.
Mas ainda faltam os próximos capítulos, nos quais o país precisará completar uma série de reformas estruturais. Entre essas reformas está o ajuste fiscal nas províncias, a Reforma da Previdência e do sistema de aposentadorias''. ''Mas eu vejo que isso precisaria ser mais bem recebido no Brasil, já que existe a possibilidade de reprogramar a dívida externa'', sustentou Vieytes. (AE)

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