O governo argentino respirará um pouco mais aliviado ontem, depois da chegada a Buenos Aires do subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos, John Taylor, enviado pelo presidente George W. Bush para respaldar a Argentina. A chegada de Taylor está sendo encarada pelo governo como um forte respaldo ao país. No entanto, a intenção do governo é que mais do que um apoio moral, esta visita permita vislumbrar a possibilidade de alguma ajuda financeira.
Ontem a Casa Branca confirmou que o presidente Bush parabenizou o presidente Fernando de la Rúa pelo pacote de ajuste fiscal. Mary Ellen Countryman, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, explicou que Bush elogiou a meta de déficit fiscal 0% e ‘‘a vontade de manter o curso firme’’. No entanto, Countrymen afirmou que ‘‘não se falou sobre empréstimos novos’’.
Segundo o governo argentino, Bush também teria dito a De la Rúa que a Argentina ‘‘é um país muito importante nesta região do mundo, e seu sucesso também é importante para os EUA. Por isso acho que é possível o adiantamento dos fundos do FMI de setembro para agosto’’.
Enquanto Taylor analisa in loco a crise argentina, em Buenos Aires, o governo De la Rúa continua as negociações para obter do FMI o pagamento antecipado de US$ 1,26 bilhão antes do fim deste mês, possivelmente no dia 17. Esta atitude do FMI seria seguida da entrega de outros fundos por parte do Banco Mundial e do Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID), que elevaria o total da ajuda à Argentina até US$ 4 bilhões.
O diretor do FMI, Horst Köhler, declarou ontem que sua intenção é a de ‘‘ajudar a Argentina da melhor forma possível’’. No entanto, segundo o porta-voz do FMI, Francisco Baker, o organismo ainda não definiu uma posição sobre a entrega antecipada dos fundos.
Mario Blejer, ex-funcionário do FMI que em breve ocupará o cargo de vice-presidente do Banco Central argentino, afirmou que o governo De la Rúa ‘‘já está negociando acordos com países europeus para apoios bilaterais financeiros’’. Blejer declarou que por enquanto ‘‘são conversações’’.
Também ontem, a Argentina obteve o apoio do governo alemão. O ministro das Finanças desse país, Hans Eichel, afirmou que seu país apoia o pedido argentino de antecipar os desembolsos do FMI.
A ministra do Trabalho da Argentina, Patricia Bullrich, disparou críticas contra os mercados, afirmando que existe uma ataque especulativo contra a Argentina. Segundo Bullrich, os ataques são provenientes de bancos de investimentos e brokers dos EUA.
Seguindo a mesma linha da ministra, o ex-presidente da Bolsa de Buenos Aires, Julio Macchi, afirmou que ‘‘os líderes do mundo deram seu apoio à Argentina e o governo mostrou que está na direção correta’’. Macchi disse que não é ‘‘fã de teorias conspiratórias’’, mas que não encontra ‘‘outra explicação para esta elevada taxa de risco do país. Os especuladores venderam uma grande massa de bônus achando que a queda da Argentina seria rápida. Mas como isso não ocorreu, agora começam a espalhar rumores altamente negativos’’.




AS CAUSAS DA CRISE
1. Em 1991, a Argentina adotou uma âncora cambial: um peso passou a valer um dólar.
2. O câmbio fixo ajudou o país a acabar com a hiperinflação. Nos quatro anos seguintes, a Argentina cresceu, em média, 7% ao ano.
3. Privatizações, investimentos estrangeiros e receitas de exportação garantiram um fluxo de dólares suficiente para que a economia se financiasse na primeira metade da década de 90.
4. Mas o dólar começou a valorizar-se em relação às moedas de países europeus, asiáticos e latino-americanos. As exportações argentinas perderam competitividade
5. Com o fim das grandes privatizações, a queda no fluxo de investimento estrangeiro para os países emergentes e a perda de competitividade das exportações, a Argentina começou a ter problemas para conseguir dólares para quitar sua dívida.
6. Em 1999, quando a Argentina já enfrentava uma recessão, o Brasil abandonou o câmbio fixo e desvalorizou o real. A desvalorização reduziu a competitividade das exportações argentinas para o Brasil.
7. A desconfiança de que o país não conseguiria manter o câmbio fixo e que poderia declarar moratória da dívida externa generalizou-se no final de 1999. No início de 2000, o país anunciou um acordo com o FMI.
8. A economia argentina não conseguiu melhorar a competitividade de seus produtos e restaurar a confiança de investidores. Nas últimas semanas, aumentou a desconfiança de que o país acabe sendo obrigado a declarar moratória.




OS PACOTES DE DE LA RÚA
29 maio/00 – O então ministro da Economia, José Luis Machinea, anuncia pacote que prevê corte nos gastos públicos, redução dos salários do funcionalismo e reestruturação de estatais. O objetivo é cumprir programa com o FMI.
10 nov/00 – Novo pacote prevê a privatização do sistema de previdência social, a desregulamentação do setor de saúde e a elevação, de 60 anos para 65 anos, da idade mínima de aposentadoria para as mulheres.
21 dez./00 – Sai pacote de socorro de US$ 39,7 bilhões. Do total, US$ 13,7 bilhões viriam do FMI, e o restante, de bancos privados e do Banco Mundial.
16 mar./01 – Ricardo López Murphy, que assumira a Economia no lugar de Machinea, anuncia plano que prevê cortes nos gastos públicos de cerca de US$ 8 bilhões até 2003.
21 mar./01 – Cavallo assume a Economia no lugar de López Murphy e anuncia pacote que prevê imposto sobre transações financeiras semelhante à CPMF no Brasil.
15 jun./01 – Medida muda a cotação do peso para o comércio exterior. O preço das exportações e as importações argentinas passa a ser traduzido pelo valor de uma cesta de moedas que combina o dólar e o euro.
30 jul./01 – Senado aprova pacote fiscal que prevê, entre outras medidas, corte de 13% em salários e aposentadorias superiores a US$ 500 e determina que um eventual aumento da arrecadação seja destinado a aumentar o piso a US$ 1.000.

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