A Argentina não terá outra opção senão a de implementar um novo e drástico ajuste fiscal e reduzir ainda mais os impostos caso a economia do país não mostre sinais de recuperação e patine no círculo vicioso em que se encontra há mais de três anos, disse Adolfo Sturzenegger, diretor da Fundação Novum Millenium e um dos principais assessores e amigos do ministro de Economia, Domingo Cavallo.
Em entrevista, por telefone de Buenos Aires, Sturzenegger enfatizou que falava como economista independente e que as opiniões eram estritamente pessoais, o que não implicava representar necessariamente as diretrizes que a equipe econômica do governo vem seguindo ou pode seguir nos próximos meses.
‘‘Se a economia argentina não mostrar sinais de reativação, o próximo passo terá de ser dado na direção de uma redução ainda maior no gasto público e nos impostos’’, alertou o economista, cujo filho, Federico Sturzenegger, faz parte da atual equipe econômica do ministro Cavallo.
O economista acredita, no entanto, que medidas como essas não serão necessárias se a operação que o governo vem montando – troca de boa parte de sua dívida pública de curto prazo, que vence nos próximos quatro anos, por outros de maior prazo – tiver sucesso. ‘‘Essa troca, certamente, restabeleceria a confiança interna e externa e provocaria uma forte queda na taxa de risco país, hoje indispensável para a recuperação da economia argentina’’, acrescentou o economista.
Sturzenegger apontou, no entanto, um problema sério e que vem preocupando o governo: a fuga de capitais. Em abril, por exemplo, o Banco Central da República Argentina (BCRA) contabilizou perda de reservas de US$ 2,73 bilhões, totalizando US$ 7,933 bi lhões desde fevereiro, quando começou a ‘‘crise de confiança’’ em relação à Argentina. Essa perda de reservas se deve, de acordo com o BCRA, a uma forte saída de US$ 5,4 bilhões de depósitos privados nesse período e ao financiamento de US$ 2,53 bilhões que o BC argentino teve de conceder ao governo em meados de abril.
De fevereiro até o final de abril ainda, os depósitos bancários caíram US$ 4,1 bilhões, ou 5%, totalizando até então US$ 80,14 bilhões. Simultaneamente a dolarização no sistema financeiro do país nos últimos dois meses subiu de 61,2% para 62,8%. A queda nos depósitos, de acordo com o BCRA, teve origem na saída média de US$ 3,5 bilhões de capitais privados, ou 85% do total, enquanto que o restante pertencia ao setor público. ‘‘É muito importante que o setor privado e, mais ainda, o mercado financeiro ofereçam uma sensação de confiança ao país, caso contrário, a recuperação econômica não se dará no curto ou médio prazos’’, comentou Sturzenegger.
Para ele, a credibilidade e a confiança hoje são fundamentais para atrair capital e para permitir uma queda significativa do risco país, que ainda se encontra no patamar de 1.000 pontos base (10%), taxa praticamente inviável para o financiar a recuperação econômica do país. Sturzenegger, que no início da gestão do ministro Cavallo chegou a declinar o convite para se somar à equipe econômica, disse que o governo do presidente Fernando de la Rúa vem fazendo esforços significativos para assegurar que a Argentina não corra riscos de não cumprir com seus compromissos externos, apesar do gravíssimo problema fiscal, acentuado ainda mais pelo fraco desempenho da arrecadação tributária.

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