Argentina pode decretar novo ajuste fiscal
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de maio de 2001
Agência EstadoDe São Paulo 
A Argentina não terá outra opção senão a de implementar um novo e drástico ajuste fiscal e reduzir ainda mais os impostos caso a economia do país não mostre sinais de recuperação e patine no círculo vicioso em que se encontra há mais de três anos, disse Adolfo Sturzenegger, diretor da Fundação Novum Millenium e um dos principais assessores e amigos do ministro de Economia, Domingo Cavallo.
Em entrevista, por telefone de Buenos Aires, Sturzenegger enfatizou que falava como economista independente e que as opiniões eram estritamente pessoais, o que não implicava representar necessariamente as diretrizes que a equipe econômica do governo vem seguindo ou pode seguir nos próximos meses.
Se a economia argentina não mostrar sinais de reativação, o próximo passo terá de ser dado na direção de uma redução ainda maior no gasto público e nos impostos, alertou o economista, cujo filho, Federico Sturzenegger, faz parte da atual equipe econômica do ministro Cavallo.
O economista acredita, no entanto, que medidas como essas não serão necessárias se a operação que o governo vem montando troca de boa parte de sua dívida pública de curto prazo, que vence nos próximos quatro anos, por outros de maior prazo tiver sucesso. Essa troca, certamente, restabeleceria a confiança interna e externa e provocaria uma forte queda na taxa de risco país, hoje indispensável para a recuperação da economia argentina, acrescentou o economista.
Sturzenegger apontou, no entanto, um problema sério e que vem preocupando o governo: a fuga de capitais. Em abril, por exemplo, o Banco Central da República Argentina (BCRA) contabilizou perda de reservas de US$ 2,73 bilhões, totalizando US$ 7,933 bi lhões desde fevereiro, quando começou a crise de confiança em relação à Argentina. Essa perda de reservas se deve, de acordo com o BCRA, a uma forte saída de US$ 5,4 bilhões de depósitos privados nesse período e ao financiamento de US$ 2,53 bilhões que o BC argentino teve de conceder ao governo em meados de abril.
De fevereiro até o final de abril ainda, os depósitos bancários caíram US$ 4,1 bilhões, ou 5%, totalizando até então US$ 80,14 bilhões. Simultaneamente a dolarização no sistema financeiro do país nos últimos dois meses subiu de 61,2% para 62,8%. A queda nos depósitos, de acordo com o BCRA, teve origem na saída média de US$ 3,5 bilhões de capitais privados, ou 85% do total, enquanto que o restante pertencia ao setor público. É muito importante que o setor privado e, mais ainda, o mercado financeiro ofereçam uma sensação de confiança ao país, caso contrário, a recuperação econômica não se dará no curto ou médio prazos, comentou Sturzenegger.
Para ele, a credibilidade e a confiança hoje são fundamentais para atrair capital e para permitir uma queda significativa do risco país, que ainda se encontra no patamar de 1.000 pontos base (10%), taxa praticamente inviável para o financiar a recuperação econômica do país. Sturzenegger, que no início da gestão do ministro Cavallo chegou a declinar o convite para se somar à equipe econômica, disse que o governo do presidente Fernando de la Rúa vem fazendo esforços significativos para assegurar que a Argentina não corra riscos de não cumprir com seus compromissos externos, apesar do gravíssimo problema fiscal, acentuado ainda mais pelo fraco desempenho da arrecadação tributária.


