Buenos Aires – O governo argentino pode apresentar ainda hoje um plano econômico baseado em três eixos: a total pesificação dos depósitos e aplicações em dólares por uma cotação de 1,40 peso por dólar somada a um índice de correção monetária, um orçamento nacional ‘‘realista’’ que tem de ser aprovado pelo Congresso e um esquema monetário para este ano e para 2003.
O governo está correndo contra o relógio porque, para poder pedir ajuda concreta ao Fundo Monetário Internacional, precisa de um orçamento aprovado que contenha uma previsão do futuro econômico próxima dos números projetados pelos técnicos do FMI que estiveram em Buenos Aires nas últimas duas semanas. Por isso, teve de abandonar as primeiras metas, porque eram otimistas demais.
O vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, admitiu ontem que a previsão inicial do novo governo de que a queda do Produto Bruto Interno (PIB) seria de 2,6% estava errada. ‘‘Continuamos analisando os números e fizemos uma correção que nos leva a uma queda de cerca de 5%’’, disse. Segundo ele, o número ‘‘é muito negativo, mas é realista’’.
Todesca afirmou que a queda do PIB deve ser muito grande no primeiro trimestre do ano, mas menor no segundo. A economia começaria uma suave recuperação no terceiro trimestre, que aumentaria perto do fim do ano. ‘‘Terminaríamos 2002 com um impulso positivo que permitiria sair do ‘vermelho’ em 2003’’, disse.
O governo deve apresentar no orçamento uma previsão de inflação anual de entre 14% e 15%, também muito superior às primeiras projeções que tinha feito, de entre 6% e 10%. No cenário atual de recessão, ruptura da cadeia de pagamentos e falta de liquidez provocada pelo confisco, a inflação dos primeiros 22 dias de janeiro foi de 1,9%.
Em um quadro de forte queda da arrecadação tributária, o orçamento conteria também uma previsão de déficit de entre 2,5 bilhões e 5 bilhões de pesos. O Ministério da Economia abandonaria a idéia de propor um déficit zero, como tinha sido a primeira intenção da administração de Eduardo Duhalde.
Todesca também confirmou que o governo em breve vai anunciar que todos os depósitos em dólares serão convertidos em pesos na cotação oficial de 1,40 peso – ‘‘para ter um equilíbrio e minimizar qualquer arbitrariedade’’ – e que pretende criar um índice de correção monetária para evitar que os poupadores percam poder aquisitivo.
O governo trabalha com a idéia de fazer uma emissão de moeda inferior a 3 bilhões de pesos, menos do que o necessário para compensar a desvalorização no total de dinheiro circulante.
Ontem a primeira-dama argentina, Hilda ‘‘Chiche’’ González de Duhalde, admitiu que ‘‘a reclamação das pessoas é legítima’’, em alusão ao panelaço nacional da última sexta-feira, mas pediu ‘‘paciência’’ porque a situação do país é de ‘‘absoluta emergência’’. ‘‘Chiche’’ Duhalde, titular interina do ministério do desenvolvimento social, indicou que o governo conseguiu reunir ‘‘1,5 bilhão de pesos’’ (US$ 860 milhões) para responder à emergência social, de saúde e alimentar que numa primeira etapa alcançará ‘‘seis milhões de pessoas’’.
Nas primeiras entrevistas aos jornais La Nación e Clarín desde que assumiu o cargo, a 11 de janeiro passado, afirmou que o grande protesto nacional ‘‘foi legítimo, se desenrolou em paz, mas lamentavelmente houve infiltrados’’. Considerada a ‘‘Evita do século XXI’’ por seu trabalho na área social como o fez nos anos 40 e 50 a esposa do ex-presidente argentino Juan Domingo Perón, Chiche Duhalde reconheceu que ‘‘a mulher de um dirigente tem um espaço natural de poder’’ e esclarece: ‘‘Uso esse poder para o bem’’.

mockup