São Paulo - Os embarques de trigo argentino para o Brasil estão paralisados. Nos portos do Sul, navios permanecem atracados, sem que haja trigo para ser carregado. É a primeira vez que isso ocorre nesta safra e pocas vezes na história das relações entre os dois países. Apesar de todos os problemas enfrentados pela Argentina desde o fim do ano passado, os exportadores estavam cumprindo os prazos dos contratos e assegurando os embarques do cereal, atendendo à necessidade brasileira de aproximadamente 600 mil toneladas por mês.
No entanto, ontem no porto de Baía Blanca, um navio contratado pelo Moinho Anaconda continuava vazio. As negociações com trigo já estavam interrompidas desde a quarta-feira, num protesto das tradings contra decreto do governo que determinava que o aumento dos impostos sobre as exportações de produtos agrícolas seria retroativo a 4 de março.
O decreto também previa o pagamento do imposto na data do embarque dos produtos e não na data da compra. Hoje o governo argentino recuou e manteve a taxa apenas sobre os contratos fechados a partir da data da publicação do decreto, 8 de abril. Mas as vendas de trigo não foram retomadas. O país está parado por causa do feriado bancário, decretado nesta segunda-feira para que os bancos se preparem para novo pacote econômico.
‘‘Não há oferta de trigo em nenhum ponto da Argentina nem preço sinalizador’’, diz o gerente de finanças e de suprimentos da Anaconda, Fernando Ribeiro Souza. Na semana passada, o preço do trigo argentino disparou para até US$ 149 a tonelada FOB, mas nenhum negócio foi fechado a valores acima de US$ 136 a tonelada FOB.
A situação preocupa os moinhos brasileiros porque a expectativa é de que o mercado argentino continue paralisado até a primeira semana de maio. ‘‘Depois do feriado bancário, vem a greve geral, marcada para o dia 28 e não haverá negociação com trigo pelo menos até maio. A situação da Argentina é traumática e a nossa, difícil, porque não sabemos como o país vai se comportar’’, diz Souza.
O Grupo Anaconda, assim como os grandes moinhos nacionais, fez compras de trigo a longo prazo e, por isso, afasta a possibilidade de desabastecimento interno a curto prazo. A indústria também é otimista quanto à recuperação do mercado argentino de trigo. ‘‘Mesmo com uma oferta justa, por conta da safra de trigo menor este ano, a Argentina não vai arriscar o mercado já assegurado de trigo no Brasil. O rompimento conosco seria uma insanidade’’, diz o gerente da Anaconda.

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